23 fevereiro, 2026

PCdoB e China socialista (Parte 5): da crise do marxismo à reconstrução da unidade


Vimos nos textos anteriormente publicados neste portal que a relação do PCdoB com a China socialista não foi linear nem estática, mas marcada por aproximações, rupturas e reelaborações sucessivas, fortemente condicionadas pelo contexto do movimento comunista internacional. Nos primeiros momentos, a China revolucionária foi percebida como uma referência alternativa ao que o partido caracterizava como revisionismo soviético, especialmente após o XX Congresso do PCUS. Essa aproximação, contudo, foi acompanhada de tensões teóricas crescentes, sobretudo a partir do Grande Salto Adiante, da Revolução Cultural e, posteriormente, da política externa chinesa e da formulação da Teoria dos Três Mundos.

Leia mais: O PCdoB e a China socialista (Parte 1)

A partir do final dos anos 1960 e, com maior intensidade, ao longo das décadas de 1970 e 1980, o PCdoB passou a formular uma crítica sistemática ao que denominava “revisionismo chinês”, posição influenciada decisivamente pela interlocução com o Partido do Trabalho da Albânia e por uma leitura rigorosa do marxismo-leninismo clássico. Essa crítica não se limitava à política externa do Partido Comunista da China (PCCh) ou à aproximação com os Estados Unidos, mas incidia sobre questões centrais da teoria marxista: a luta de classes sob o socialismo, o papel do partido, a ditadura do proletariado e os limites da utilização de mecanismos de mercado. Na interpretação predominante naquele período, as reformas chinesas eram vistas como expressão de um processo de restauração capitalista em curso.

Essas posições refletiam o quadro mais amplo da crise do socialismo real, marcada pelo colapso da União Soviética, dos regimes do Leste Europeu e, finalmente, pela própria inflexão da Albânia socialista no início dos anos 1990. A dissolução dessas referências históricas produziu um abalo profundo nas bases teóricas e políticas do movimento comunista internacional e atingiu diretamente o PCdoB, que se viu compelido a revisar análises anteriores e a enfrentar o desafio de repensar o socialismo em novas condições históricas, num cenário marcado pela ofensiva ideológica do neoliberalismo.

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09 fevereiro, 2026

PCdoB e China socialista (Parte 4): respostas comunistas após o colapso europeu

 

Por Nilton Vasconcelos 

A Queda do Muro de Berlim, na noite de 9 de novembro de 1989, foi um acontecimento emblemático que simbolizou não apenas o colapso do socialismo na República Democrática Alemã (RDA), mas também na Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária e Romênia.

Leia mais: O PCdoB e a China socialista (Parte 1)

Na Albânia, o processo seguiu um roteiro particularmente dramático, marcado por revoltas estudantis, greves operárias, tentativa de derrubada da estátua de Stálin, êxodo em massa para a Itália e a Grécia, entre outros episódios de profunda instabilidade política e social. Em junho de 1990, milhares de albaneses, influenciados pela onda contrarrevolucionária, invadiram as embaixadas em busca de asilo; em novembro do ano seguinte, cerca de 27 mil albaneses tomaram navios rumo à Itália, em cenas de grande impacto simbólico. Anos depois, Nexhmije Hoxha, viúva de Enver Hoxha e destacada dirigente do Partido do Trabalho, analisou as circunstâncias que levaram à instalação de um regime anticomunista que desmontou as conquistas socialistas e subordinou o país aos interesses das potências ocidentais, atribuindo ao afastamento das posições marxistas-leninistas a causa essencial da derrota (HOXHA, 1998).


   O colapso do socialismo europeu e a crise do marxismo

Em outubro de 1990, João Amazonas reuniu-se com Ramiz Alia, então presidente albanês, ocasião em que discutiram a crise política em curso. Na sequência, Amazonas visitou o túmulo do amigo Enver Hoxha. Já no avião, em retorno ao Brasil, voltou-se para Renato Rabelo e afirmou “Olhe para baixo e se despeça. Esta será a última vez que veremos a Albânia” (BUONICORE, 2012). Este episódio revela não apenas a dramaticidade da situação, mas também a consciência do veterano comunista de que o mundo socialista – ou parte expressiva dele – encontrava-se em franco colapso. Diante dessa realidade, impunha-se ao PCdoB o desafio de enfrentar a nova conjuntura reafirmando a perspectiva socialista e definindo um norte político e estratégico.

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02 fevereiro, 2026

PCdoB e China socialista (Parte 3): crítica ideológica em tempos de crise do socialismo

Os posicionamentos do Partido Comunista do Brasil diante das transformações na China, da crise soviética e da inflexão da Albânia no debate internacional sobre o socialismo
  

NIlton Vasconcelos

Neste texto, que integra o estudo sobre as relações entre o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Comunista da China (PCCh), avançamos na análise de um período marcado pelo acirramento das críticas às concepções teóricas de Mao Zedong e à política de aproximação do PCCh com os Estados Unidos. O desenvolvimento das relações políticas e econômicas entre China e EUA, intensificado após a visita do presidente Richard Nixon a Pequim, em 1972, estabeleceu um quadro inédito no movimento comunista internacional. Esse processo ocorreu no mesmo período em que os Estados Unidos sofreram uma derrota histórica no Vietnã, com a queda de Saigon em 30 de abril de 1975. 

Em 1979, chineses e estadunidenses estabeleceram relações diplomáticas plenas, com o reconhecimento da República Popular da China (RPC) como única representante legítima do país, substituindo Taiwan nas Nações Unidas. Na sequência, tiveram início as reformas econômicas conduzidas sob a liderança de Deng Xiaoping, caracterizadas pela abertura ao investimento estrangeiro, pela introdução de mecanismos de mercado e pela crescente inserção da China na economia global. 


No Brasil, o mesmo período foi marcado por profundas transformações políticas. A Lei da Anistia, promulgada em 1979, possibilitou o retorno das lideranças que se encontravam no exílio. As eleições gerais de 1982 e a campanha das Diretas Já, em 1984, compuseram o processo de transição que culminaria no fim da ditadura e na abertura de uma nova fase de redemocratização, simbolizada pela eleição indireta de Tancredo Neves, em 1985.​