02 abril, 2005

Política Pública para a Indústria Automotiva Brasileira na Década de 90: uma análise do seu processo de elaboração


Publicado nos Anais do Enanpad  - Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação em Administração 2003                                                    
Autoria: Nilton Vasconcelos

Resumo: Ao longo da última década podem-se destacar duas políticas públicas adotadas pelo governo brasileiro para o setor industrial e, particularmente, para a indústria automotiva: os acordos resultantes dos debates ocorridos no seio da Câmara Setorial Automotiva e a legislação que estabeleceu o Regime Automotivo Brasileiro, nas suas várias modalidades. Duas políticas e dois procedimentos diferenciados no seu processo de formulação. Neste artigo analisam-se as duas experiências a partir de abordagens teóricas do campo da ciência política — o pluralismo e o neocorporatismo. Considera-se que a alternância entre distintos modelos sofreu forte influência das políticas macroeconômicas praticadas nesse período. Observou-se uma maior interação e negociação entre os atores sociais interessados na vigência do arranjo neocorporatista, e maior centralização política e privilégio para determinado segmento da cadeia produtiva no período seguinte.


Introdução 

Há aproximadamente oito anos, quando o Sr. Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República, uma das medidas de impacto sobre o setor industrial foi o esvaziamento das Câmaras Setoriais, que, nos primeiros anos da década de 90 do Século XX, desempenharam importante papel na formulação das políticas públicas para a indústria.

À época, difundiu-se a ideia de que o novo governo adotaria uma orientação que poderia ser sintetizada na máxima segundo a qual “a melhor política industrial é a não-política industrial”. Essa frase tem correspondência com a corrente de pensamento econômico que proclama ser indesejável toda interferência do Estado na economia, salvo em situações específicas em que, face à falta de perspectiva de retorno, não haja interesse do mercado em investir em determinada atividade. Visto que a política industrial se concretiza através do apoio, proteção, incentivo e estímulo a ramos e atividades econômicas, a implementação de políticas industriais seria compreendida como iniciativa potencialmente causadora de desequilíbrios econômicos ou como premiação à “incompetência” e restrição à elevação dos padrões competitivos das empresas locais. Assim, o esvaziamento das Câmaras Setoriais foi interpretado por vários autores como um indicativo de mudança na condução da política pública para a indústria (COMIN, 1998; BEDÊ, 1997).

Simultaneamente, decretava-se o “fim da Era Vargas” e da política de substituição de importações, com fundamento em um discurso que afirmava a incapacidade do setor público em atuar diretamente no mercado, ao tempo em que ressaltava a suposta superioridade do mercado. As medidas de abertura dos portos promovidas a partir do governo Collor de Mello foram incrementadas com o Plano Real, dessa vez sobretudo em função da sobrevalorização do câmbio. Reduzia-se por esses mecanismos a proteção à indústria local.

Sob a influência das concepções neoliberais, a década de 90 assistiu à redução do tamanho do Estado através dos programas de privatização, terceirização ou publicização, conforme preconizava a reforma coordenada pelo então ministro Bresser (PEREIRA, 1997). No comando da economia, o combate à inflação e ao déficit público foi priorizado. O endividamento público, considerado alto à época — em torno de 60 bilhões de reais (1) — e a conseqüente perda de capacidade de realização de investimentos públicos era argumento apresentado de forma contundente pela equipe de governo para justificar o novo rumo adotado.

Contudo, a noção de que o Estado deixaria de desenvolver políticas setoriais não se sustentou durante muito tempo, sendo a indústria automobilística um palco privilegiado para esta análise.

Interessa-nos neste artigo abordar especificamente duas políticas públicas federais — os acordos resultantes da Câmara Setorial e o Regime Automotivo — que corresponderam a distintos formatos de políticas públicas quanto ao seu processo de elaboração. O Regime Automotivo surge em 1995, no contexto da política de valorização cambial, e representa uma alternativa bastante distinta de elaboração de política pública quando comparada com as Câmaras Setoriais.

A Câmara Setorial Automotiva tem sido discutida por vários autores, entre os quais Bedê (1997), Zauli (1997), Arbix (1996), Anderson (1999) e Guimarães (1994), havendo uma certa unanimidade entre esses em analisar a experiência da Câmara Setorial à luz de uma abordagem teórica neocorporatista. Não existem, contudo, análises que procurem interpretar o Regime Automotivo com base na teoria do campo da ciência política — a partir do qual são desenvolvidos os estudos em administração pública. Mas, a nosso ver, é a abordagem pluralista a que melhor se presta para descrever a política setorial de incentivo à indústria automobilística, que surge com a edição do Regime Automotivo.

A partir de uma breve discussão sobre cada uma das vertentes teóricas referidas e a compreensão que encerram dos processos de elaboração de políticas públicas, serão apontadas na próxima seção as suas principais características, de modo a facilitar a compreensão das políticas setoriais automotivas implementadas no Brasil na última década de 90.

A pesquisa foi concluída em 2001 e buscou analisar o comportamento dos principais atores sociais envolvidos na indústria automotiva brasileira, entendidos como a representação dos setores econômicos, da sociedade, em especial sindicatos, além de organismos governamentais.

Conforme salienta Souza (SD:4), o campo da administração pública, enquanto disciplina, “não se constitui em um único tipo de pensamento ou de teoria, mas sim ela é o resultado da superposição de várias outras disciplinas, sem que isto signifique descuido metodológico ou “salada” teórica”. Por isso mesmo, consideramos indispensável tratar das questões teóricas associadas à formulação de políticas públicas, mas, também, pela natureza do objeto de pesquisa, buscar elementos no campo da teoria econômica que auxiliasse a compreensão do fenômeno em estudo. A mesma argumentação, desenvolvida na citação acima reproduzida, serve para justificar um certo viés sociológico que podemos observar, ainda que pontualmente, neste trabalho. Adicione-se, ainda, a herança intelectual da administração pública: “sua ontologia e suas teorias foram construídas a partir do referencial, conceitos e métodos da ciência política. É preciso lembrar que todas as teorias e métodos carregam consigo pressuposições ontológicas e conseqüências políticas” (SOUZA, SD:6). Neste sentido é que a autora defende o afastamento de teses tradicionais que buscavam despolitizar a disciplina, ou purificar a administração pública da política.

A abordagem do nosso objeto empírico implicou em uma pesquisa documental sobre o processo de elaboração das políticas públicas: os objetivos explicitados pelos atores envolvidos, e mesmo, a avaliação já produzida pelos mesmos atores sociais e agências 2 estatais, sobre os resultados alcançados. Incluiu ainda, a identificação dos condicionantes econômicos, políticos e sociais ao processo de elaboração e implementação das políticas em análise; os referenciais teóricos, quando explicitados, que fundamentaram as decisões dos atores sociais diretamente envolvidos com a formulação das políticas; fatores associados à introdução de inovações tecnológicas, em particular de automação industrial, e à implementação de políticas de flexibilização de direitos trabalhistas, que pudessem ter influenciado negativamente as metas de emprego nos setores automotivo e de autopeças; levantamento da variação da receita tributária relativa aos setores mencionados frente à política de redução de alíquotas ou isenção de impostos e taxas, ao longo da década de noventa.

Neste particular, as estatísticas de acompanhamento do nível de emprego e da produção produzidas pela Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), pelo Sindicato da Indústria de Autopeças (Sindipeças) e IBGE, foram de grande valia, especialmente quando confrontadas com as informações elaboradas pelos órgãos governamentais e pelos sindicatos de trabalhadores metalúrgicos, em particular do ABC, de São Paulo e Betim, que tiveram e têm destacada atuação na negociação de inúmeros acordos, e por contemplar as duas principais centrais sindicais do país. Outras organizações, a exemplo da Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos (Fenabrave) que produzem dados e análise específicos com relação ao emprego no setor de serviços diretamente ligado à indústria automobilística, foram alvo do nosso levantamento.

2. Abordagens teóricas

Pluralismo

O modelo teórico pluralista/racionalista é fundado nas idéias econômicas neoclássicas. O método neoclássico — o “individualismo metodológico” — baseia-se na ideia de que todos os fenômenos sociais devem ser compreendidos como um produto da ação dos indivíduos e que esse comportamento individual é ‘totalmente racional’, ou seja, é movido por uma busca de maximização de benefícios. Assim, um eleitor ou um consumidor, diante de alternativas que lhe são apresentadas, escolhe aquela que acredita servir melhor aos seus objetivos. A formulação de políticas públicas estaria condicionada a um processo equivalente: diferentes grupos de interesses, atuando junto ao governo, procurariam maximizar benefícios e reduzir custos (LOBATO, 1997: 31).

Assim, o pressuposto do pluralismo é a existência de múltiplos grupos políticos que buscam fazer prevalecer os seus interesses. As demandas e apoios corresponderiam a insumos que seriam processados no interior de um sistema político, no qual os grupos atuam disputando entre si, numa competição entre múltiplos focos de interesses organizados. Os produtos desse processo corresponderiam às decisões, resultantes da correlação de forças existente em determinado sistema político. Teríamos, desse modo, um sistema análogo à situação de mercado de concorrência perfeita (ZAULI, 1997:20), o equilíbrio entre “forças opostas” seria a garantia de uma sociedade livre, onde todos teriam acesso à vida política.

A ação dos Grupos de Interesse é, portanto, fundamental na abordagem pluralista. Segundo Almond e Powel (1972:52), o que caracteriza esses grupos é a existência de um certo número de “indivíduos ligados por laços particulares de preocupação ou de vantagens e que têm certa consciência desses laços”. Assim, a articulação desses interesses é indispensável para a manutenção de uma relação estável entre sociedade e sistema político. Sem a abertura de canais de manifestação de insatisfação por grupos da sociedade, a tendência 3 é o crescimento do descontentamento; esse crescimento pode levar à violência, o que, segundo essa concepção, representa uma quebra no desejável equilíbrio.

Diferentemente da teoria liberal clássica, os pluralistas não concebem um Estado neutro, acima dos grupos. Entretanto, consideram haver um “interesse público”, representado pelo governo (em substituição ao Estado), neutralizando-se frente aos grupos de interesse. Mas não há uma unanimidade entre os estudiosos quanto a esse aspecto crucial. Smith (1995), por exemplo, entende que, na perspectiva pluralista, a burocracia estatal, como núcleo formulador de políticas, deve ser vista como mais um grupo de interesse. Mesmo a noção de equilíbrio quanto à capacidade de influência dos grupos de interesse sobre o Estado/governo tem sido questionada (LOBATO, 1997), admitindo-se que alguns grupos têm, naturalmente, maiores chances de fazer valer os seus interesses.

A essas interpretações pluralistas estão associadas as abordagens que concebem a intervenção do Estado na elaboração de políticas como uma oportunidade para que o comportamento dos diversos grupos políticos seja dirigido para auferir ganhos. Assim, em função da existência de algum privilégio no interior do Estado — subsídios, vantagens —, os agentes econômicos tenderiam a se dedicar à “captura” de alguma fatia desses benefícios (rent-seeking), criando condições para a prática da corrupção. Nesse contexto, os agentes de decisão (burocratas, políticos e grupos de interesse) procuram garantir uma ampliação da sua influência e poder de decisão dentro do setor público — este se constitui em um dos principais argumentos com que se tenta justificar uma posição contrária à intervenção do Estado na economia e, particularmente, a que se efetiva através de políticas industriais.

Uma outra perspectiva teórica, nesse mesmo campo, que tem como origem o pensamento econômico neoclássico, é a Teoria da Escolha Racional (TER), que se preocupa em explicar os resultados coletivos a partir da maximização da ação dos indivíduos e tenta identificar situações ideais, de equilíbrio, generalizando os resultados em axiomas, em verdades universais (GREEN e SHAPIRO, 1994). Na Teoria da Escolha Pública (TEP), com similaridade, entende-se que as organizações nada mais são que um agregado de indivíduos em busca de benefícios comuns para todos. Assim, os bens emanados dos serviços públicos devem ter seus custos mensurados e atribuídos aos seus beneficiários, sendo a análise do desempenho dos serviços públicos indispensável à permanência da oferta dos bens públicos visando à racionalização dos recursos, por definição limitados e escassos (MENY E THOENIG, 1989:68-71).

A crescente influência da TER na ciência política tem sido associada aos estudos baseados na Teoria dos Jogos(2), que se propõe a contribuir para o desenvolvimento de uma teoria da ação através da geração de previsões a partir de modelos matemáticos, portadores de uma suposta universalidade. A teoria dos jogos baseia-se em um modelo de utilidade esperada, no conceito de equilíbrio e na existência de regras do jogo como fatores exógenos (MUNCK, 2000), características essas que têm motivado fortes críticas. Em primeiro lugar, porque, diante de um conjunto de escolhas possíveis, a Teoria dos Jogos pressupõe que determinados comportamentos dos atores são mais prováveis e que esses comportamentos podem ser universalizados, aplicáveis a distintas situações. Em segundo lugar, porque, para tornar “viável” a geração de previsões, utiliza-se do conceito de equilíbrio, condição em que é reduzido arbitrariamente o número de variáveis. A simplificação impede a geração de modelos complexos, o que jogaria por terra a possibilidade de realizar as generalizações pretendidas por essa abordagem. Por último, a terceira crítica feita à Teoria dos Jogos referese ao fato de que as ‘regras do jogo’, ou seja, o grupo de jogadores, suas estratégias e preferências, a seqüência de escolhas feitas por esses atores, as informações que possuem, etc. 4 são considerados fatores exógenos, aceitos como verdadeiros previamente e não estando sujeitos a alterações — constantes, portanto.

A despeito dessas limitações, Przeworski (1988) destaca a grande relevância que tem assumido o método econômico no estudo da sociedade, particularmente a ofensiva da visão econômica neoclássica sobre as mais diversas concepções teóricas no campo das ciências políticas, da sociologia, da antropologia e da psicologia social, mesmo entre vertentes teóricas marxistas.

Neocorporatismo

No neocorporatismo, diferentemente de no pluralismo (que vê na ação e interação dos indivíduos e grupos a base para a compreensão das políticas públicas implementadas por um governo neutro e limitado), o Estado é mais um ator interagindo na sociedade com outros atores igualmente relevantes.

O neocorporatismo surge a partir dos trabalhos desenvolvidos separadamente por Philippe Schmitter e Gerhard Lembruch. Os estudos de Schmitter se firmaram em contraposição à corrente pluralista e à sua interpretação de sistemas de representação de interesses independentes do Estado e baseados na dinâmica de grupos de pressão, decorrendo da análise dos modelos de negociação típicos do Welfare State.

Schmitter (1974) define o corporativismo como um arranjo institucional, um sistema de representação de interesses, reconhecido ou autorizado, ou eventualmente criado pelo Estado, de quem recebe o monopólio da representação das respectivas categorias sociais, com vistas à articulação dessas com as instâncias de deliberação do próprio Estado. Lembruch, paralelamente, desenvolveu sua análise a partir do estudo da cooperação entre grupos de interesse na elaboração de políticas públicas, ressaltando o processo de negociação e a relativa autonomia das lideranças frente aos seus representados. Esse autor compreende o corporativismo como um sistema e como um processo político de intermediação e implementação de políticas - processo que denominou de concertação corporatista (Arbix, 1996:87-91). Sua objeção a Schmitter é quanto à ênfase reservada por este à investigação do impacto dos arranjos corporatistas nos processos de elaboração e implementação de políticas, sem levar em conta a dimensão dos resultados desses processos.

Na análise de Claus Offe (1989) “a dinâmica pluralista dos grupos de interesse tornava suas demandas ‘excessivas’, transcendendo os limites da tolerância da ordem econômica”. Assim, nas sociedades capitalistas com processos democráticos mais consolidados, o pluralismo cede lugar a um coporatismo do tipo societal, em que há uma institucionalização da negociação entre os interesses do capital, trabalho e Estado. Em Estados autoritários, sem experiência plena de pluralismo, de acordo com Schmitter (1974), manifesta-se um corporatismo de tipo estatal no relacionamento entre instituições públicas e sociedade civil, estando o Brasil classificado nesta tipologia. O permanente controle sobre os sindicatos, a restrição à realização de greves e a regulação da representação via concessão do monopólio, são elementos característicos de uma tradição estatal-corporativa (BOSCHI, 1987:166).

A abordagem do neocorporatismo pressupõe a existência do conflito de interesses e de classe na sociedade, mas considera que, a partir da intermediação, tais conflitos possam ser equacionados e a sua excessiva politização impedida, tornando-se os grupos de interesse (sindicatos, partidos, corporações) co-responsáveis pela elaboração das políticas. Em sua visão pragmática, Schmitter (1974) afirma que nas sociedades em que a burguesia não é suficientemente forte e existem grandes demandas sociais o surgimento do corporativismo atende à necessidade de inibir a articulação autônoma por parte de uma classe subordinada, reforçando a paz social. 5

Desse modo, o modelo neocorporatista, como modelo de análise de processos de intermediação de interesses, adequar-se-ia mais às sociedades organizadas do que àquelas com sistema democrático fragilizado, como no caso brasileiro (ZAULI, 1997:51). Neste sentido é que Arbix, baseado nos estudos de Cawson (1985), analisa a experiência das Câmaras Setoriais numa perspectiva mesocorporatista, em que tais arranjos são restritos a setores determinados da sociedade em que haja participação dos trabalhadores.

Portanto, ganharia evidência, sobretudo, o processo de elaboração das políticas públicas, incorporando a participação da sociedade como forma de “neutralizar” o Estado. Ou seja, no modelo neocorporatista, o Estado não é neutro, mas cede parte das suas prerrogativas, delegando autoridade às representações de setores específicos para negociar, junto às agências estatais, a implementação de políticas públicas. O Estado adotaria essa postura, fundamentalmente, em razão da falta de condições objetivas de impor a esses segmentos uma determinada política concebida previamente. Assim, quanto mais articulada e organizada a sociedade, mais o Estado, através das suas agências governamentais, se veria na contingência de conclamar a representação social para negociar políticas. Quanto mais “desorganizada’ a sociedade, mais autoritários os mecanismos de elaboração de políticas públicas, o que poderia variar, inclusive, em função de turbulências conjunturais.

Portanto, as abordagens pluralista e neocorporatista pressupõem sistemas de representação de interesses cuja diferença básica é a obtenção ou não do monopólio da representação por suas respectivas categorias com o aval do Estado. Ou seja, ambas as concepções teóricas consideram a existência dos grupos de interesses atuando na sociedade, sendo que a abordagem pluralista, diferentemente da neocorporatista, prescinde do Estado, ao conceber que as políticas públicas resultam da ação dos grupos políticos na defesa dos seus interesses. A suposição do pluralismo é que, em condições ditas normais, de equilíbrio, a representação de interesses dos inúmeros grupos políticos resulta em benefício para o conjunto da sociedade.

3. Câmara Setorial Automotiva e Regime Automotivo

Nesta discussão das políticas setoriais para a indústria automotiva na década de 90 serão observados os aspectos institucionais e organizativos relacionados ao seu processo de formulação para, em seguida, elaborar-se uma análise comparativa entre essas políticas e as vertentes teóricas já discutidas.

Formalmente, a primeira experiência de câmaras setoriais no Brasil é iniciada com a publicação do Decreto no 96.056, de 19 de maio de 1988, que reorganizou o Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI), dando-lhe a competência para constituir, na Secretaria Especial de Desenvolvimento Industrial (SDI), organismos colegiados com representações de órgãos governamentais e da iniciativa privada, aos quais caberia elaborar propostas de políticas e de programas setoriais integrados. Posteriormente, já no governo Collor, essas câmaras foram substituídas pelos Grupos Executivos de Política Setorial (GEPS)(3), cujas características em muito os diferenciavam daqueles fóruns criados no governo anterior. Por último, no processo de negociação para a aprovação do Plano Collor 2, no Congresso Nacional, foram criadas pela Lei 8.178/91, de março de 1991, câmaras setoriais como instância de resolução de conflitos quanto à política de preços e assessoramento, no âmbito do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento. Somente em agosto de 1991, uma portaria ministerial delega à Secretaria Nacional de Economia (SNE) a definição da competência e abrangência das Câmaras e a designação dos seus membros (ANDERSON, 1999). 6

Ao longo de 1992, não só a Câmara Setorial Automotiva é implantada como estabelece o seu primeiro acordo. Outras 28 câmaras setoriais com 135 grupos de trabalho específicos já haviam sido montados.

A composição, objetivos e funcionamento desses organismos colegiados variaram muito ao longo desses anos. Na década de 80, por exemplo, as câmaras eram compostas apenas pelo setor empresarial e governo, e os objetivos ligados à discussão de estratégias de política industrial não se concretizaram, consistindo apenas em “mecanismos de troca entre Estado e as elites empresariais” (ARBIX, 1996:63). Segundo Anderson (1999), nessa primeira fase das câmaras, os sindicatos não participavam das reuniões por entender que os objetivos do governo estavam restritos ao controle de preços e que as câmaras não tinham qualquer poder decisório, podendo apenas sugerir medidas ao Executivo. Os organismos que substituíram as câmaras, os Grupos de Executivos de Política Setorial, também não superaram os limites da discussão do controle de preços.

A configuração mais duradoura das câmaras setoriais — e a que alcançou maior êxito — começa a ser delineada a partir da necessidade que tem o governo Collor de administrar a saída do congelamento de preços, após o fracasso dos planos econômicos, em 1991. Dessa vez, as câmaras tinham caráter tripartite, com a participação de representantes do Ministério da Economia, dos empregadores e trabalhadores dos respectivos setores produtivos ou das entidades sindicais nacionais. A câmara setorial de brinquedos foi a primeira a funcionar, a partir de junho de 1991, com essa nova caracterização. A Câmara Setorial Automotiva somente seria instalada em 17 de dezembro de 1991, após um ano de grandes dificuldades para o setor, tendo o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo como um dos atores que mais concorreram para a viabilização do evento. A redução dos níveis de emprego do setor, desde os primeiros meses daquele ano, e o anúncio da Ford de que fecharia a divisão de motores de sua unidade de São Bernardo, implicando a demissão de pelo menos setecentos trabalhadores, serviu de estopim para um conjunto de iniciativas do sindicato local (ARBIX, 1996). Diversas medidas foram tomadas, entre as quais uma visita à direção da Ford nos Estados Unidos, com vistas à reversão da decisão da empresa, sem lograr êxito contudo. A discussão sobre o emprego e o desenvolvimento da indústria automotiva no âmbito da câmara setorial realizou-se, afinal, a partir de um contato entre o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Vicentinho, e o ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, como última alternativa para uma solução do conjunto dos problemas desse segmento industrial.

Até em 1995, quando as câmaras setoriais foram esvaziadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso, duas outras modificações, ainda que de menor relevância, foram efetivadas. Com a assunção de Itamar Franco à Presidência da República, as câmaras retornaram à órbita de poder do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo e tiveram suas atribuições redefinidas no sentido de reforçar a concepção adotada desde a Nova Política Industrial, em 1989, e de promover acordos com vistas à reestruturação dos complexos industriais e à modernização das relações de trabalho. Em novembro de 1994, visando definir critérios para a instalação das câmaras e acompanhar o seu funcionamento, ou seja, os programas de reestruturação por elas aprovados, é criado um Grupo Interministerial Coordenador das Câmaras Setoriais (GICS). As câmaras setoriais passam a ser definidas como parte das políticas de reestruturação industrial e de estabilização e deveriam ser representativas não só dos principais agentes atuantes na cadeia produtiva, mas também dos consumidores.

Sem dúvida, foi a câmara setorial do complexo automotivo aquela que ganhou maior notoriedade, pela importância da participação do setor no produto interno e pelo peso dos 7 trabalhadores metalúrgicos, especialmente da região de São Bernardo do Campo, no sindicalismo brasileiro. A decisão do sindicato do ABC em participar da câmara setorial representou uma mudança de estilo de atuação frente a uma nova realidade, que marcaria as relações de trabalho a partir de então.

O fim da experiência das Câmaras Setoriais está ligado às características da política macroeconômica, altamente dependente do panorama internacional, de modo que as decisões adotadas a partir de demoradas negociações viravam pó com as bruscas mudanças no quadro econômico. Comin (1998:65) destaca a dependência do Plano Real aos “humores” do mercado, de maneira que “a marca da política econômica é a instabilidade de regras, em termos de sua subsistência, sujeita a reversões, e de timing, extremamente veloz”. Neste contexto de subordinação das políticas setoriais à “instabilidade” da política de “estabilização econômica” (sic), é que se justifica a abrupta mudança das alíquotas de importação. Mudança esta que determinou um crescimento de 179% nas importações de veículos no mês de setembro de 1994, relativamente ao mesmo mês do ano anterior. Diante do novo quadro, as montadoras alteraram suas estratégias de modo a ampliar a participação dos importados no seu mix de vendas, com profundas implicações sobre os acordos estabelecidos na Câmara.

A política de redução das alíquotas de importação de veículos resulta em enorme déficit na balança comercial brasileira. Assim, em março de 1995, o governo decide pela elevação da referida alíquota de 20% para 70%. Com esta medida, busca-se alcançar um objetivo da equipe econômica de estancar o déficit no comércio internacional, especialmente após a crise mexicana, que anunciava a possibilidade de outros países que adotaram planos de estabilização segundo a orientação do FMI serem alvos de “ataques especulativos”.

O Regime Automotivo

Em junho, a MP No 1024/95 inclui novas regras para o setor, marcando, na prática, o fim da câmara setorial e uma mudança importante em termos da política econômica. O estabelecimento de cotas para importação de veículos, a redução das alíquotas de importação de peças e componentes para 2,8%, em 1996, e das de máquinas e equipamentos para 2,0%, foram algumas das medidas constantes da medida provisória. Com essas novas diretrizes, o acordo costurado na Câmara perde o sentido e a idéia de estabelecer regras negociadas amplamente por todos os atores sociais diretamente envolvidos se inviabiliza.

Zauli (2000:70) refere-se à ocorrência de “consultas junto a diversos atores participantes dos interesses organizados no âmbito do complexo automotivo”, precedendo a edição das medidas provisórias que configuraram o regime automotivo. Essas consultas, entretanto, não envolveram todos os interesses organizados e ocorreram num primeiro momento visando “legitimar sua decisão, sem muito sucesso. A partir daí, nem mesmo esta fachada é mantida” (COMIN, 1998).

Um relatório do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo, sobre o andamento das câmaras, descreve o quadro que se estabeleceu naquele momento:

"Logo após a câmara de fevereiro, iniciou-se a discussão do Regime Automotivo Brasileiro, que deveria possuir um status semelhante ao argentino, para que o Brasil pudesse assumir um nível de atratividade para novos investimentos semelhante àquele país. A discussão desse regime, que culminou com a publicação da MP 1.024, assumiu tal preponderância para a indústria, governo e trabalhadores, que a agenda representada pelo 3º Acordo ficou obscurecida, migrando para o âmbito da medida provisória a maioria das discussões e providências previstas [...]. O restante dos compromissos do acordo está agora recebendo a devida atenção, uma vez que a locação de esforços dirigiu-se, prioritariamente, à consecução daquela estratégia. Algumas outras ações isoladas foram levadas a efeito por iniciativas do 8 MICT em articulação com outros órgãos do governo (MICT apud ANDERSON, 1999:24-25)." 

Estava sendo implementada uma nova forma de produzir a política setorial. Um processo mais democrático é substituído pelo pragmatismo de atender às demandas de curto prazo da política econômica. As decisões passam a ser tomadas a partir da articulação interna ao governo, predominantemente sob a ótica da política macroeconômica, e, naquele momento, a prioridade era atrair investimentos de forma a equacionar o desequilíbrio das contas externas.

Como já foi salientado anteriormente, o Regime Automotivo Brasileiro começa a ser estabelecido a partir de edição de Medida Provisória reeditada dezesseis vezes, com diferentes numerações(4), ao longo dos anos de 1995, 1996 e 1997 e, finalmente, transformada na Lei No 9.449/97.

Portanto, é correto afirmar que o Regime Automotivo constitui-se de um conjunto de medidas legais, caracterizando-se como uma política industrial. Segundo estudo do IPEA, o complexo automotivo foi “o único setor industrial que contou com um conjunto amplo de políticas de incentivos após o processo de abertura econômica” e o Regime Automotivo representou uma medida especialmente relevante para o governo Fernando Henrique Cardoso (IPEA, 1998).

O regime automotivo caminhou na direção oposta às concepções que propugnavam a total extinção dos tão criticados incentivos e subsídios setoriais, que se constituíram, no passado, numa das características mais marcantes da estratégia de substituição de importações. A integração competitiva do Brasil na economia globalizada não poderia se dar através da competitividade alcançada às custas de generosos incentivos, recursos naturais abundantes ou mão-de-obra barata, rezava a nova cartilha da política econômica. Porém, as vantagens oferecidas pelo Regime Automotivo, aliadas aos benefícios concedidos por governos estaduais e prefeituras, jogaram por terra o propalado “império do mercado”.

Para atender às necessidades da política macroeconômica (de que era preciso estancar a sangria de recursos com a importação de veículos e garantir a realização de investimentos no setor automotivo nacional), o Regime Automotivo Brasileiro representava o instrumento capaz de fazer frente ao Regime Automotriz Argentino, em vigência desde o início da década de 90. Era preciso consolidar o Mercosul, mas, simultaneamente, atrair parte dos investimentos que estavam sendo direcionados para aquele país vizinho.

Por isso mesmo, o Regime Automotivo do Brasil provocou reações entre os parceiros do Mercosul e muita polêmica na Organização Mundial do Comércio (OMC). No âmbito regional foi iniciada a negociação com vistas a um regime automotivo comum. Com os EUA e a União Européia a discussão foi mais dura, sendo feitas concessões pelo governo brasileiro referentes à redução de prazos de adesão e ampliação de cotas de importação, evitando que tivesse prosseguimento, na OMC, uma acusação de prática não-condizente com os acordos internacionais.

Ao Regime Geral seguiu-se o Regime Especial, voltado para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Posteriormente, foi editado o Regime de Desenvolvimento Regional, que garantiu condições especiais para a transferência de uma fábrica da Ford para a Bahia. 9

Câmara Setorial como arranjo mesocorporativo

Glauco Arbix, em obra já citada, que analisa os primeiros anos da Câmara Setorial da Indústria Automotiva, ao procurar demonstrar as características daquele processo, enquadra-o no campo dos estudos neocorporatistas, considerando que a experiência brasileira ilustra que o principal ator nos arranjos neocorporatistas continua sendo o Estado. Ressalta que não pretende sugerir que esses mecanismos de negociação passaram a se constituir em tendência no país e que o surgimento dessa prática indica que o Estado não teve condições de impor sua política para um dado setor da economia. Assim, entidades representativas e Estado não conseguiram, isoladamente, viabilizar políticas independentemente do comportamento dos demais atores. Nas palavras de Arbix, “(...) o Estado opera, em geral, de modo a proteger a acumulação do capital. No entanto, por ser distinto de um ‘comitê executivo da burguesia’, o Estado precisa legitimar a sua intervenção junto aos representantes tanto do capital quanto do trabalho” (1996:108). Na sua empreitada de analisar a experiência da câmara setorial automotiva à luz da abordagem neocorporatista, no entanto, o autor se ateve não ao interesse geral do Estado, mas à compreensão do sistema de relações de poder de uma parte do sistema estatal voltado para a produção industrial.

Zauli (1997), concordando com Arbix, considera que a qualificação analítica se afasta do modelo pluralista liberal, aproximando-se do modelo corporatista societal, especificamente neocorporatista e, mais ainda, mesocorporatista para a câmara automotiva, se apóia em alguns aspectos:

"Em primeiro lugar (...) tem-se um processo de intercâmbio político entre diferentes agências estatais e um número limitado de organizações de interesses não-competitivas, funcionalmente diferenciadas, em boa medida organizadas hierarquicamente e detentoras de um monopólio da representação de interesses promovido e legalmente mantido pelo Estado. Em segundo lugar (...) o que de fato ocorreu foi a elaboração, implementação e sanção de políticas “quase-públicas” de recuperação do setor automotivo, que obscureceram as fronteiras entre “inputs” e “outputs”, “público” e “privado”, entre “Estado” e “sociedade”. Em terceiro lugar (...) as organizações de interesses que participaram de tal arranjo eram relativamente autônomas diante do Estado e estavam engajadas em um processo de negociação e compromissos de mão-dupla, em vez de sujeitas à imposição de medidas e comportamentos ditados pelo Estado. Finalmente (...) os atores envolvidos nestas negociações estavam organizados setorialmente, e a mobilização de sindicatos, associações empresariais e agências estatais com responsabilidade sobre as políticas relevantes para o setor automotivo norteou-se pela necessidade de uma reformulação e recuperação dos indicadores de desempenho do complexo automotivo (Zauli, 1997-96-97)." 

Sem dúvida, a Câmara Setorial da Indústria Automotiva, como mecanismo institucional avalizado pelo Estado e constituído de representação limitada de grupos de interesse para debater e deliberar sobre políticas públicas, pode ser enquadrada como um arranjo neocorporatista ou corporatista societal, atendendo, particularmente, ao definido por Cawson (1985) como mesocorporativismo. 10

Observe-se que a Câmara sobreviveu pouco mais de três anos, em meio a um processo político conturbado, atuando concomitante a três presidentes da república, um impeachment, alguns planos econômicos, particularmente o Plano Real, que marcou uma reorientação importante da política macroeconômica. Por isso mesmo, a Câmara esteve sob ameaça de descontinuidade, o que revela a precariedade do arranjo. Para reforçar esse argumento, deve- se levar em conta que, apesar de terem sido implementadas várias câmaras setoriais, poucas tiveram uma atuação efetiva e nenhuma delas obteve destaque comparável à câmara do setor automotivo. Isso reforça o caráter meso da Câmara Automotiva, coexistindo com formatos pluralistas no nível geral da sociedade.

Regime Automotivo e abordagem pluralista

Por tudo o que foi exposto, fica evidente a diferença entre os dois modos de se fazer política setorial. Zauli (1997:143) considera ter havido uma centralização de decisões sobre a política industrial do setor, frente à tendência anterior de compartilhamento com outros atores do processo de formulação e implementação de políticas. Com o Regime Automotivo, observa-se que as decisões governamentais foram tomadas visando interesses supostamente da economia e do Estado, indiferente à existência de divergências internas ao governo e entre este e as principais representações dos trabalhadores e do capital.

Como observado nos modelos pluralistas, no processo de elaboração da política setorial não há um número determinado de grupos de interesses participando do processo de negociação, os quais, assim, desenvolvem-se sem que o Estado lhes dê a chancela da representação social, sem que se institucionalize o debate sobre as várias alternativas de medidas a serem adotadas. Simultaneamente, o poder de pressão, o lobby exercido pelos atores com maior acesso às instâncias decisórias, permite que alguns desses sejam mais beneficiados que outros no entrechoque de interesses.

Comin (1998:189), ao descrever o novo processo de elaboração da política setorial, comparativamente ao período das Câmaras Setoriais, afirma:

"Mal havia se consolidado o novo arranjo e começa um rápido retorno aos velhos métodos de elaboração de políticas no Brasil: os acordos palacianos estabelecidos diretamente entre autoridades governamentais e os grandes interesses empresariais passam a comandar o processo, excluindo os demais segmentos da sociedade, trabalhadores, consumidores, pequenas empresas, etc., e mesmo do próprio Estado, Congresso Nacional, Confaz, governos estaduais, etc."

O mesmo ponto de vista é corroborado pelo movimento sindical. Ao analisar a política setorial, o Sindicato do ABC identifica entre os principais problemas a previsão de queda no nível do emprego, apesar da implantação de novas plantas, e a piora nas condições de trabalho e salários. Para o sindicato, “o governo brasileiro escreveu o novo regime sem considerar o projeto de comércio exterior discutido na Câmara Setorial Automotiva durante os anos de 1992 e 1993. Os benefícios foram dirigidos para as montadoras, e medidas de garantia para os fornecedores e trabalhadores foram retiradas” (DIEESE/SINDICATO DO ABC, 1997:6).

As montadoras aparecem, sistematicamente, como o segmento ou grupo de interesse que obteve mais vantagens junto ao Estado. Por liderar a cadeia produtiva do setor automotivo, cuja importância para a economia nacional já foi destacada, as montadoras foram beneficiadas com um tratamento, no mínimo, diferenciado.

Neste sentido, cabe destacar as conclusões da auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU, 2000), que, baseada em informações privilegiadas, obtidas em função das competências constitucionais que lhe foram atribuídas de fiscalizar as despesas públicas, concluiu que:
‰ as montadoras absorveram 86% da renúncia fiscal decorrente do Regime Automotivo, em 1996, 1997 e 1998, privilegiando setores altamente capitalizados em detrimento de outras atividades econômicas e sociais; 11
‰ considerando a participação percentual no comércio internacional, em 1998, das empresas do setor automotivo, as montadoras corresponderam ao único segmento que apresentou déficit, corroborando a idéia de que o Regime favoreceu as empresas mais capitalizadas e intensivas em capital, atuando de forma a favorecer a concentração de capital;
‰ nos primeiros três anos do Regime Automotivo, as montadoras obtiveram a pior relação entre renúncia fiscal e exportações, quando comparadas com os segmentos de autopeças, máquinas e equipamentos agrícolas e reboques e semi-reboques; considerando a relação entre impostos não-pagos em função da renúncia fiscal e maquinário adquirido, são as autopeças que apresentam os melhores resultados associados à modernização do parque industrial.

A pressão política unilateral sobre o governo, fora do contexto de um debate em que os interesses do conjunto dos segmentos envolvidos fossem levados em conta, pode ser observada em diversos momentos do processo de elaboração e implementação da política setorial: na fixação de alíquotas diferenciadas para montadoras e autopeças — favorecendo a desnacionalização do setor; na aprovação do Regime Especial e do Regime de Desenvolvimento Regional; na falta de contrapartidas sociais pelos beneficiários da renúncia fiscal — na forma de compromissos com geração de empregos e prática de salários próximos da média do setor; e, mais que isso, na constante ameaça de demissões em massa caso os benefícios não fossem concedidos.

Se não nos faltam elementos suficientes para classificar o Regime Automotivo como característico dos modelos pluralistas, podemos tirar esta conclusão até mesmo pelo contraponto com a prática das Câmaras Setoriais. Como explicar esta trajetória, ou seja, abandonar processos mais participativos e cujos resultados são considerados positivos, por um processo de decisão mais centralizado que tem sido avaliado com restrições pela maioria daqueles diretamente interessados no setor?

Analisando as motivações para a retomada, em novas bases, das Câmaras Setoriais na era Collor, Arbix (1996) considera que aquela iniciativa correspondia a uma necessidade daquele governo de legitimar-se frente aos insucessos da sua política macroeconômica. Similarmente, podemos dizer que uma das possíveis explicações para que fosse alterado o direcionamento do processo de elaboração/implantação da política setorial no sentido de práticas pluralistas foi o relativo sucesso do Plano Real no combate à inflação. A credibilidade popular obtida pelo o governo Fernando Henrique Cardoso para conduzir a economia, independentemente de análises mais profundas sobre as conseqüências desse modelo econômico, pode ser apontada como o fator primordial para que, em nome da necessidade de adotar-se medidas que ajudassem a consolidar o Plano Real, ocorresse uma centralização de decisões na equipe responsável por conduzir a política econômica brasileira. Essa interpretação permitiria compreender a ascendência dessa equipe sobre as demais agências governamentais na definição dos parâmetros da política setorial.

4. Considerações finais

Pelo exposto, fica evidenciado que a análise comparativa entre a Câmara Setorial Automotiva e o Regime Automotivo resultou na observação de algumas diferenças em relação ao processo de formulação e implementação, evidenciando:
- a ocorrência de arranjo corporatista ou mesocorporatista, em que o Estado reconhece autoridade a um número limitado de 12 representações sociais, que participam de negociações com vistas à formulação de acordo sobre a política setorial, corroborando as conclusões de diversos outros autores quanto ao caráter corporatista da Câmara Setorial Automotiva;
- que as circunstâncias que envolveram a decretação do Regime Automotivo se ajustam às concepções pluralistas segundo as quais grupos de interesses disputam de per si benefícios junto às agências governamentais, configurando um sistema de pressões sobre o governo, o qual também passa a ser interpretado como um grupo de interesse;
- que a implantação do Regime Automotivo Brasileiro (RAB) se deu através de uma ruptura com a Câmara Setorial Automotiva, não havendo consulta sistemática ao conjunto dos setores interessados, em particular à representação dos trabalhadores; ao contrário, a decretação do RAB correspondeu ao descumprimento de acordo que acabara de ser formalizado;
- que durante a vigência do Regime Automotivo ficou caracterizada uma condição de interlocutor privilegiado das montadoras junto às agências estatais, em detrimento dos demais segmentos sociais empenhados no desenvolvimento setorial, que possibilitou o exercício de uma maior influência nas decisões governamentais, fato este que pôde ser constatado inclusive por Auditoria do TCU, conforme relatado no capítulo terceiro(5);
- que, por outro lado, o arranjo neocorporatista permitiu uma maior democratização das discussões, definindo as Câmaras Setoriais como espaço de negociação, havendo maiores possibilidades de interferência da representação dos trabalhadores e mesmo de outros segmentos da indústria e serviços que guardam contradições com as montadoras, a exemplo da representação das empresas de autopeças, bem como concessionárias;
- que a adoção de um ou de outro formato de elaboração/implementação de políticas setoriais parece estar relacionada à necessidade do Estado de legitimar a sua ação. O assunto pôde ser analisado em dois momentos. Primeiro, quando o governo Collor precisou administrar a saída do congelamento de preços, após o fracasso dos planos econômicos, em 1991. A necessidade de apoio social à nova alternativa de política econômica proposta pelo Ministério da Fazenda levou o governo federal a negociar uma saída para a crise através de um arranjo neocorporatista, o que levou à disseminação das Câmaras Setoriais, em particular ao surgimento da Câmara Automotiva.

O retorno a práticas características de abordagens pluralistas, com o fim da experiência das Câmaras Setoriais, segue a mesma linha de raciocínio, mas em sentido inverso, e ocorreria no governo Fernando Henrique Cardoso. Dessa vez, a obtenção do apoio social ao combate à inflação a partir do Plano Real, sustentado por grande campanha publicitária desenvolvida nos meios de comunicação de massa, permitiu ao governo federal substituir os procedimentos de consulta aos segmentos 13 interessados da indústria automobilística por métodos mais condizentes com suas necessidades.

No caso específico, sendo a nova política setorial baseada em atração de capitais estrangeiros, necessários à viabilização da política macroeconômica em vigência, e considerando o quadro de vulnerabilidade econômica externa a que esta política conduziu o país, tornava-se indispensável uma flexibilidade no processo decisório. Tal flexibilidade significava dar liberdade à equipe econômica para tomar decisões, sem que fosse necessário estabelecer consultas aos setores envolvidos, o que normalmente demanda tempo e barganha política. Vale destacar para reforçar esse argumento que, nesse período, os investimentos automotivos realizados no país situavam-se entre aqueles de maior vulto em todo o planeta.

As abordagens pluralista e neocorporatista fornecem um quadro explicativo sobre a atuação de grupos de interesse na formulação das políticas públicas para o setor automotivo. Os resultados obtidos com os diferentes arranjos são compreendidos, portanto, como decorrência dos métodos utilizados, e a adoção de uma ou outra alternativa de elaboração de políticas públicas é vista como relacionada a conjunturas específicas, fortemente influenciadas pelo comportamento da economia.

Importantes aspectos teóricos quanto ao processo de formulação das políticas públicas requerem melhor consideração. Vale destacar, em especial, o fato de que, historicamente, o modelo neocorporatista surge não só em contraposição ao pluralista, mas também substituindo-o, como a representação de um modelo democraticamente mais avançado. Poderíamos concluir observando que esse fato revelaria uma manifestação de retrocesso em um aspecto do processo democrático, mas isso requer análise mais profunda. Por outro lado, afirma-se a necessidade de verificar até que ponto o conceito de neocorporatismo é aplicável à experiência das Câmaras Setoriais.

Notas

(1) Desde 1994 a dívida pública explodiu, mais que decuplicando: em agosto de 2002, a dívida pública representava 62% do PIB ou 820 bilhões de reais. (2) Essas teorias admitem nas situações sociais uma condição de jogo, pressupondo duas estratégias: solidária e egoísta e de, pelo menos, dois jogadores. A “arrumação” correspondente às possibilidades de estratégia resulta no Dilema do Prisioneiro, Jogo da Galinha, etc. (BARRETO, 1998). (3) A composição desses grupos não estava baseada na representação formal de entidades ou atores sociais relevantes; sua ação não tinha caráter deliberativo e dependia de aceitação governamental, a posteriori, não havendo, portanto, compromisso governamental de acatar as soluções propostas, nem tampouco agenda ou programa de negociação (ANDERSON, 1999). (4) Em função das inúmeras reedições dessa MP, é possível encontrar nos documentos, textos de discussão, artigos e livros, referências aparentemente desencontradas sobre a legislação que originou o Regime Automotivo. A MP 1.024, de 13.06.95, foi reeditada com os números 1.047, 1.073, 1.100, 1.132, 1.165, 1.200, 1.235, 1.272, 1.311, 1.351, 1.393, 1.435, 1.483, 1.483-14, 1.483-15, 1.483-16, 1.483-17, 1.483-18, 1.483-19, 1.536, 1.536-21 e 1.536-22, até ser aprovada pelo Congresso Nacional e promulgada sob o número 9.449, de 14 de março de 1997. Os decretos 1.761/95 e 1.863/96 regulamentaram alguns dispositivos estabelecidos nas MPs. 14 (5) A edição de 2 de dezembro de 2001 de O Estado de São Paulo dá conta de uma pesquisa desenvolvida pelos economistas Maria Abadia Alves e Sérgio Prado, no Instituto de Economia da Unicamp, sobre a relação entre investimentos realizados por três montadoras, no âmbito do Regime Automotivo Brasileiro, e os incentivos fiscais a elas concedidos. A pesquisa, que tomou por base a implantação da GM, em Gravataí; da Mercedes-Benz, em Juiz de Fora; e da Renault, em São José dos Pinhais (PR), concluiu que, nos dois primeiros casos, o total dos incentivos e desembolsos dos tesouros estaduais será, ao longo do período de vigência dos benefícios, superior ao investimento realizado pelas empresas. Quanto à geração de empregos, os pesquisadores calcularam que, nesses empreendimentos, o custo por emprego esteve em torno de 328 mil a 400 mil reais. Segundo o estudo, pequenos empreendedores conseguem abrir até oito postos de trabalho em três anos, com investimentos de 250 mil reais, sem nenhum subsídio. Esse trabalho, elaborado pelos pesquisadores da Unicamp, reforça os argumentos aqui desenvolvidos de que as montadoras foram amplamente beneficiadas com a política setorial vigente a partir de 1995, e que o discurso oficial sobre a geração de empregos tinha uma função de justificar perante a opinião pública a concessão dos incentivos.

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01 agosto, 2000

Guerra Fiscal e a Indústria Automotiva Baiana

 

Nilton Vasconcelos

Introdução*

Passados mais de cinco anos desde a decisão do governo do Estado em articular apoios federais, estaduais e municipais com vistas à implantação de uma planta de produção de automóveis na Bahia, pouco se escreveu ou foi publicado sobre o processo que levou à viabilização daquele empreendimento. Não me refiro aos aspectos tecnológicos ou da organização da produção industrial, e sim às decisões político-administrativas que de uma forma geral foram designadas como “guerra fiscal”.

Guerra fiscal é a denominação genérica de uma disputa entre os diversos estados da federação ou diferentes países objetivando atrair investimentos produtivos. No Brasil, especialmente na última metade da década de noventa do século que se encerrou, a indústria automotiva, por razões que procuraremos esclarecer adiante, foi um locus privilegiado para a análise deste tipo conflito entre entes federativos. Como já ressaltado, é um processo que não se restringiu apenas ao nosso país, nem tampouco à indústria automotiva, sendo uma prática ainda observada na atualidade, embora em menor intensidade.

O fenômeno da guerra fiscal tem caráter universal, contudo, o importante é considerar que os investimentos obtidos a qualquer preço têm menos chances de vingar. Aqui está a origem de muito debate. Quais seriam os limites admissíveis para as concessões realizadas pelo setor público? Como fazer uma análise custo/benefício comparativa de modo a garantir que uma decisão de atrair investimento no setor automotivo, por exemplo, é mais vantajosa que em outro segmento produtivo, seja industrial, agrícola ou de serviços?

A política de incentivar investimentos automotivos mobilizou a grande maioria dos estados brasileiros. A disputa envolveu além da implantação de uma montadora estadunidense na Bahia, a movimentação do governo gaúcho visando a construção de fábricas da General Motors e da Ford Motores em seu território; e, ainda,  iniciativas dos governos do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e São Paulo para instalação de unidades produtivas da Peugeot, Mercedes, Renault, Audi, Chrysler, Volks, entre outras.

Neste artigo é priorizada a análise da implantação da indústria automotiva na Bahia, apresentando de maneira sistematizada não só as condições que vieram a público sobre a negociação, mas também o contexto em que se deu este processo. Neste particular, a implementação de uma política setorial decretada pelo governo federal em 1995, denominada Regime Automotivo, foi decisiva para estimular a guerra fiscal, alterando significativamente o processo anterior de elaboração destas políticas, baseado nos acordos coordenados a partir da Câmara Setorial Automotiva.

Foram várias as Medidas Provisórias que vieram a dar forma ao Regime Automotivo –  um conjunto de incentivos que visavam atrair e consolidar os investimentos na indústria automotiva (IPEA, 1998:14). Apesar da orientação macro-econômica de então apontar para atender à máxima de que “a melhor política industrial é a não-política industrial”, perseguindo a concepção que advoga ser a intervenção estatal prejudicial à economia, as novas diretrizes para o setor automotivo pareciam contrariar aquela lógica.

Outros trabalhos (VASCONCELOS, 2001) expõem detalhadamente a diferença entre os dois modos de se fazer política setorial – a Câmara Setorial e o Regime Automotivo, o que não é objeto deste texto. O fato é que, com o Regime Automotivo, as decisões governamentais produziram vantagens extraordinárias às montadoras de automóveis, em detrimento de outros segmentos da cadeia produtiva e dos trabalhadores.

Como em casos semelhantes, no processo de negociação, o poder de pressão desempenhado pelos grupos de interesse com maior acesso às instâncias decisórias, garante a alguns destes mais benefícios que outros no entrechoque de objetivos distintos.

Neste sentido, cabe destacar as conclusões da auditoria do Tribunal de Contas da União (2000) que concluiu que as montadoras absorveram 86% da renúncia fiscal decorrente do Regime Automotivo, em 1996, 1997 e 1998, privilegiando setores altamente capitalizados em detrimento de outras atividades econômicas e sociais.

A pressão política unilateral junto ao governo, fora do contexto de um debate em que os interesses do conjunto dos segmentos envolvidos fossem levados em conta, pode ser observada em diversos momentos do processo de elaboração e implementação da política setorial: na fixação de alíquotas diferenciadas para montadoras e autopeças – favorecendo a desnacionalização do setor; na aprovação de políticas regionais para a indústria automotiva: o Regime Especial e o Regime de Desenvolvimento Regional; na falta de contrapartidas sociais pelos beneficiários da renúncia fiscal, a exemplo de compromissos com geração de empregos e prática de salários próximos à média do setor; e mais que isto, na constante ameaça de demissões em massa caso os benefícios não fossem concedidos.

Após a edição do Regime Automotivo Brasileiro, o governo federal estabeleceu o Regime Automotivo Especial, incentivando a instalação de montadoras nos estados localizados em regiões economicamente mais atrasadas. Por fim, em 1999, a União criou o Regime de Desenvolvimento Regional, que viabilizou a transferência do Projeto Amazon da Ford para a Bahia. Nas próximas seções deste artigo serão expostas resumidamente as características de cada medida destas e as suas implicações imediatas.

 

O Regime Automotivo: base da guerra fiscal

 

Criado para fazer frente ao Regime Automotriz Argentino, em vigência desde o início da década de 90, e atrair parte dos investimentos que estavam sendo direcionados para aquele país vizinho, o Regime Automotivo Brasileiro - RAB começa a ser definido a partir de junho de 1995, estabelecendo entre outras medidas a:

 

§  redução do índice de nacionalização para empresas já instaladas de 80% para 60%, incluindo-se como nacionais as peças fabricadas por países do Mercosul;

§  redução das alíquotas de importação de máquinas e equipamentos para 2%, em média, (representando uma redução de 90% em relação aos valores praticados anteriormente;

§  redução das alíquotas de importação de matéria-prima, autopeças e componentes para o setor automotivo de 18% para 2,8%;

§  redução do índice de nacionalização para empresas que iriam se instalar de 50% durante os três  primeiros anos e, depois, de 60%;

§  tarifas de importação preferenciais sobre veículos importados por empresas instaladas no País (pagando a metade da taxa paga por importadores sem produção local);

§  incentivos à exportação, permitindo a importação de equipamentos, auto-peças e matéria-prima sem tarifas na razão de 1 para 1 com as exportações (Lei 9.440/97).

 

Como se vê o R AB cuida fundamentalmente da redução de impostos e tarifas para  novas fábricas de montadoras, facilitando a importação de máquinas e insumos, representando assim, um duro golpe na indústria de autopeças, de predominância de capital nacional. Simultaneamente o governo pretendia obter uma melhoria na balança comercial do setor automotivo.

Estas medidas fizeram com que os Estados brasileiros se apressassem em oferecer vantagens adicionais àquelas previstas no Regime Automotivo para que estes investimentos fossem realizados em seu território, acirrando a chamada guerra fiscal. Estas vantagens envolviam desde a doação de terrenos, construção de infra-estrutura, isenção de impostos estaduais, até a participação acionária do governo no novo empreendimento, além de outros compromissos. Os Estados esperavam assim dar início a um novo ciclo de investimentos privados com a implantação de outros elos da cadeia produtiva do automóvel.

O anúncio público e festivo destes investimentos na implantação ou ampliação de novas fábricas, da produção resultante, e particularmente da geração de empregos, capitalizados no discurso dos governantes, não eram acompanhados de informações detalhadas sobre os compromissos assumidos.

O Regime Automotivo, entretanto, não oferecia benefícios considerados suficientes pelas montadoras para que estas localizassem suas unidades de produção fora do sul-sudeste do Brasil. Este argumento deu margem ao surgimento, em dezembro de 1996, de uma nova Medida Provisória que estabeleceu o Regime Automotivo Especial, com concessões fiscais adicionais às empresas do setor de material de transporte que manifestasse intenção de se instalar nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste.

Para as regiões industrialmente menos desenvolvidas, incluídas no Regime Especial, as vantagens foram significativamente maiores do que aquelas oferecidas ao sul-sudeste: isenção de Imposto sobre Operações Financeiras – IOF; do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, incidente na aquisição de bens de capital; e do Imposto de Renda sobre o lucro do empreendimento; além de outros incentivos fiscais, garantiam a redução em 50% do Imposto de Importação de veículos e redução de 90% do Imposto de Importação de insumos.

Apesar do número expressivo de montadoras que se habilitou ao Regime Especial, pouco a pouco, começaram a surgir dúvidas quanto à efetivação dos investimentos prometidos para os estados do Centro-Oeste e Nordeste e, ao final, nenhum dos vinte e cinco projetos, foi implementado. Entre estes projetos a instalação da Asia Motors na Bahia era, de longe, o mais vultuoso investimento.

 

O caso Asia Motors: benefícios sem retorno

 

A decisão da coreana Asia Motors, em 1997, de instalar-se na Bahia, baseou-se não apenas no Regime Automotivo Especial, mas também em vantagens garantidas pelo governo estadual. Estes benefícios adicionais aprovados em lei[1] permitiam ao Executivo estabelecer, sem nova consulta ao Legislativo, limites de financiamento, amortização, prazos de fruição, carência e taxas de juros para projetos da indústria de material de transporte, diferentes daqueles estabelecidos no Probahia - programa estadual de incentivos fiscais. Não ficaram estabelecidos os parâmetros dos “outros” limites, o que garantiu ao governo estadual grande liberdade de negociação. Outra lei, no mesmo ano, autorizou o Executivo a reduzir o ICMS, nas operações de saídas de veículos automotores montados ou produzidos no estado, em até 75% do imposto incidente, nos cinco primeiros anos de produção, e de 37,5% do imposto incidente, do sexto ao décimo anos de produção[2]. Aliavam-se a estas vantagens, a cessão de terrenos, a realização de obras de infra-estrutura, bem como, isenções de impostos municipais.

Desde os anos sessenta do século XX, a Bahia já havia sediado três empresas do setor de equipamentos de transportes: Magirus Deutz, Cumminns e Engex, que foram atraídas pelos incentivos fiscais para empreendimentos na região da Sudene. Esses investimentos não foram capazes, no entanto, de iniciar a formação de um pólo automobilístico no estado, sendo descontinuados. Talvez por isso mesmo, o anúncio dos investimentos coreanos, em 1997, e da Ford, em 1999, foram, sistematicamente, alvo de desconfianças quanto à possibilidade de tais empreendimentos não serem efetivados, ou mesmo, deslocarem-se tão logo se esgotem as vantagens fiscais.

A Asia Motors do Brasil deveria iniciar, ainda em 97, a construção de uma fábrica com capacidade para produzir 60 mil veículos por ano. Desde a adesão ao Regime, em 18 de abril de 96, a empresa passou a se beneficiar da redução em 50% da alíquota de importação de veículos, assumindo o compromisso em compensar com exportações, até o final de 99, as importações que contaram com os incentivos tributários.

O mercado automobilístico nacional que estava em franca expansão, registrando 1997, o recorde da produção nacional, teve seu quadro radicalmente modificado a partir da crise asiática do final do mesmo ano e, desde então o projeto da Asia Motors passou a ser reavaliado, seguindo-se a paralisação das obras de terraplanagem da fábrica.

O caso da Asia constitui uma excepcionalidade, contudo, pelo fato de ter sido a única empresa que usufruiu dos benefícios fiscais, sem realizar a contrapartida na forma de exportações, já que não cumpriu o compromisso de implantar uma unidade produtiva no país. O Relatório de Auditoria do Tribunal de Contas da União sobre os regimes automotivos geral e regional, concluído em agosto de 2000,  revelou que, embora suspenso o benefício que gozava aquela montadora coreana, nos anos de 97 e 98 a Asia Motors já havia importado 116,92 milhões de dólares com isenção de imposto, correspondendo a uma concessão de 61,1 milhões de dólares. Segundo o cálculo da auditoria do TCU, a penalidade prevista pelo descumprimento da legislação com base na multa prevista de 120% “sobre o valor FOB das importações que ultrapassaram as exportações líquidas geradas pela empresa”, equivale a US$200,94 milhões (duzentos milhões, novecentos e quarenta mil dólares).  Pela legislação do regime automotivo, o governo brasileiro poderia cobrar o prejuízo, concluído o prazo de cinco anos para a realização do investimento (TCU, 2000). No entanto, findado este prazo os recursos decorrentes da isenção de impostos e das multas contratuais não voltaram aos cofres públicos.

Novos fatos, no entanto, levaram o governo baiano a realizar nova investida com vistas à montagem de uma indústria automotiva, conquistando para tanto uma nova decisão federal que estabeleceu o Regime de Desenvolvimento Regional, cujo objetivo primordial consistiu em viabilizar a mudança da localização do Projeto Amazon do Rio Grande do Sul para a Bahia. 

 

O Regime de Desenvolvimento Regional: a Ford na Bahia

 

O primeiro fato a destacar nos acontecimentos que determinaram primeiro, a desistência da Ford em instalar-se no Rio Grande do Sul e, em seguida, a escolha da Bahia para a nova localização da sua unidade de montagem, é grau de politização em torno da decisão. Ainda não estão completamente esclarecidas as condições em que estes fatos transcorreram e, talvez, não estejam tão cedo. Há poucas dúvidas, porém, que o governo federal tenha desempenhado papel destacado neste processo. A questão é saber se esta influência foi determinante na decisão da Ford de desistir do projeto no Rio Grande do Sul, pela escolha da Bahia como nova localização, ou ambos.

Além da Medida Provisória que criou incentivo especial após a vigência do Regime Automotivo, outras decisões federais favoreceram a implantação da Ford, a exemplo do financiamento do BNDES, no valor de 700 milhões de reais; dos incentivos regulares da área de atuação da Sudene; e ainda, das isenções de impostos municipais, dos incentivos fiscais estaduais e compromissos adicionais.

Como parte destas concessões o governo federal assegurou, tão logo fosse aprovado o projeto da montadora, a redução de Imposto sobre Produtos Industrializados de 32% incidentes nas saídas do estabelecimento industrial, dos produtos nacionais ou importados diretamente pelo beneficiário, até 2010. Somente poderia se beneficiar da redução, contudo, os projetos apresentados até 31 de outubro de 1999, três meses após a edição da medida – tempo suficiente para a Ford se habilitar.

O Regime de Desenvolvimento Regional, portanto, representa uma mudança nas regras da política setorial automotiva, embora os objetivos de atração de investimentos externos tenham sido mantidos.

Como medida complementar o governo estadual fez aprovar a lei No 7.537, de 28 de outubro de 1999, instituindo o programa Proauto. Entre condições que favoreceram a atração da Ford, ficaram estabelecidas:

 

§  financiamento de capital de giro até 12% do valor do faturamento bruto da empresa, incluindo o importado, durante um período de 15 anos,

-        carência de 10 anos e amortização em 12 anos;

-        98% (noventa e oito por cento) de desconto sobre as primeiras 72 parcelas do empréstimo;

§  financiamento a investimentos fixos e despesas com implantação do projeto, pelo prazo de 15 anos,

-        carência de 5 anos, amortização em dez anos;

-        taxa de juros de 6% ao ano, sem atualização monetária;

-        capitalização dos juros no período de carência;

-        isenção total de ICMS;

-        financiar despesas com pesquisa e desenvolvimento de produtos.

 

O Estado da Bahia ficou obrigado, ainda, nos termos da Lei No 7.537/99, a:

 

§   assegurar a substituição das mesmas condições, em caso de mudança decorrente de reforma do sistema tributário ou impossibilidade jurídica de adotar o tratamento dispensado na referida lei;

§   elaborar projetos e executar serviços e obras de infra-estrutura, complementares aos serviços e às obras pelas quais se responsabilizou em razão de constituição de distritos industriais, mesmo após a transferência do domínio do imóvel para a empresa beneficiada;

§   entre as obras de infra-estrutura estão a construção do porto de Ponta da Laje e um ramal ferroviário de usos exclusivos da Ford, além da ampliação de estradas, rede de energia elétrica, telefonia, água e esgoto, etc.

 

Este conjunto de medidas, entretanto, não esgotam as concessões feitas pelo governo baiano, cujos termos do acordo com a montadora jamais foi revelado. O custo total deste processo para os baianos é difícil de estabelecer. Para a montadora, os ganhos são excepcionais, tendo atingido mais de 90% da capacidade de produção da unidade no ano de 2004, contribuindo para reverter a queda na participação do mercado automobilístico que a empresa apresentava.

Rodríguez-Pose e Arbix (1999, p. 68-71), ao discutir as relações entre guerra fiscal e desenvolvimento, afirmam que “... A única razão efetiva para o engajamento na guerra fiscal se vincula aos dividendos a serem colhidos pelos governantes. A busca desses retornos políticos está ligada à visão de que a atração de grandes empresas é panacéia para o desenvolvimento econômico”.

 

Considerações finais

 

Efetivamente, as possibilidades de estimar os benefícios oriundos das concessões estaduais e municipais frente aos custos, são reduzidas. Não faltam, é claro, modelos matemáticos que dão suporte às decisões políticas. Certamente os custos iniciais da renúncia fiscal do Regime Automotivo, que já eram elevados, foram aumentados exponencialmente pela incapacidade do governo central de administrar a localização daqueles empreendimentos. As transferências de recursos públicos para o setor privado são ampliadas significativamente com o Regime Automotivo, de modo que a renúncia fiscal evolui de 1% do PIB, em 1993/94, para 1,8%, em 1998 (Comin, 1998:74).

Uma visão crítica do regime automotivo é apresentada por Arbix e Zilbovicius (1997), em um balanço dos quarenta anos da indústria automotiva no país. Esses autores consideram que a decisão do governo de abrir mão de uma política de desenvolvimento levou não só à guerra fiscal entre os estados, mas, também, ao enfraquecimento do setor de autopeças[3] e à falta de compromissos das montadoras na difusão de tecnologias e geração de empregos.

Alban (2001), entretanto, concede importância secundária aos incentivos fiscais como fator chave na decisão das montadoras. Considera que a decisão inicial da Ford de instalar uma unidade produtiva do extremo sul do país sofrera a influência do anunciado crescimento econômico impulsionado pelo Mercosul. No entanto, devido aos seguidos revezes sofridos por esta aliança aduaneira, o foco das exportações precisaria ser dirigido para o norte, ou seja, México, Estados Unidos e Europa. Assim, a localização da planta no Nordeste favoreceria este novo direcionamento empresarial. Embora importantes, os incentivos fiscais não teriam sido determinantes e sim necessários à viabilização de uma decisão estratégica. O autor já referido considera ainda que na atualidade os incentivos fiscais não precisariam ter a magnitude que tiveram no passado, e que para tanto foram fundamentais as mudanças ocorridas no processo de produção e, por conseqüência na relação entre os elos da cadeia produtiva.

Naturalmente, nenhuma montadora decidiria por uma nova localização de uma planta industrial em troca de benefícios fiscais, se esta decisão viesse a contrariar seus objetivos estratégicos. Contudo, não se pode basear nestas conjecturas para minimizar a influência do poder político federal e estadual, bem como a grandeza dos incentivos fiscais que foram concedidos, na viabilização do empreendimento da Ford na Bahia.

É correto afirmar, portanto, que as decisões locacionais das montadoras decorrem de interesses estratégicos e vantagens concedidas pelo poder público. No quadro de um processo de produção altamente flexível e integrado, um montante relativamente menor de incentivos pode viabilizar uma nova localização fora dos antigos centros produtores. Entretanto, quando a ausência de uma política federal estruturada estimula a disputa indiscriminada entre estados, o poder de barganha das montadoras se eleva a níveis estonteantes, cuja racionalidade só pode ser compreendida à medida que se observa os interesses políticos em disputa.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

·       ALBAN, Marcus. A Reconfiguração Automotiva e seus Impactos Especiais: uma análise do caso brasileiro. Anais do Enanpad – Encontro Nacional da Pós-Graduação em Administração 2001.

·       ARBIX, Glauco & ZILBOVICIUS Mauro (Orgs.) De JK a FHC, a reinvenção do carro. São Paulo: Scritta, 1997.

·       COMIN, Alexandre. De volta para o futuro: política de reestruturação industrial do complexo automotivo nos anos 90. São Apulo: Annablume: FAPESP, 1998

·       IPEA. Regime Automotivo Brasileiro. In: Boletim de Política Industrial. Agosto n. 5, p. 14-17. Rio de Janeiro, 1998.

·       RODRÍGUEZ-POSE, Andrés; ARBIX, Glauco. Estratégias do desperdício: a guerra fiscal e as incertezas do desenvolvimento. In: Novos Estudos, no. 54, julho de 1999, pp. 55-71.

·       Tribunal de Contas da União. Relatório de Auditoria Operacional. Diário oficial da União, n º  155-E, Sexta-feira, 11 de agosto de 2000, Seção 1, pág. 73-78.

·       VASCONCELOS, Nilton. A Política Pública e o seu Processo de Formulação: o caso da indústria automotiva brasileira na década de 90. Bahia Análise e Dados. Salvador, v. 12, n. 2, setembro – 2002.

 

*Não publicado

[1] Lei  n.º 7.022 de 17 de janeiro de 1997.

[2] Lei  n.º 7.025 de 24 de janeiro de 1997.

[3] Na verdade, enfraquecimento da participação das empresas brasileiras de autopeças, com a desnacionalização do setor.

30 março, 2000

A quem serve a guerra fiscal?

 


Publicado na edição número 33 da Revista Debate Sindical, março/abril/maio de 2000

Autoria: Nilton Vasconcelos





07 outubro, 1999

Relações de trabalho e crise

                                                                                                  Nilton Vasconcelos 

O grande problema que tem afetado a sociedade e a economia no Brasil, e em boa parte do mundo é, sem dúvida, o desemprego. Os números alarmantes que persistem em desafiar as teorias econômicas amedrontam a todos e, em particular, aqueles que sobrevivem da venda da sua força de trabalho. Já são um bilhão de desempregados n o globo, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho, órgão vinculado às Nações Unidas.

Acompanha o desemprego a precarização em geral das relações de trabalho, com o crescimento do emprego informal sobre o formal, a perda de direitos trabalhistas históricos e a redução do poder aquisitivo dos salários.

As políticas governamentais estão orientadas, nos termos do discurso oficial, exatamente para essa diminuição do custo do trabalho como fomento de novas modalidades de contrato temporário de trabalho e com a suspensão do contrato de trabalho, entre outras.

Os fundamentos das políticas da chamada flexibilização das relações de trabalho é o que pretendemos discutir neste espaço. Ocorre que tais alterações no mercado de trabalho se desenvolvem no sentido oposto daquelas políticas que prevaleceram nas décadas anteriores, revelando uma visão diferenciada das diretrizes governamentais de então.

O arcabouço jurídico e institucional que norteou as relações de trabalho desde a década de trinta deste século XX, foi fortemente influenciada pelas ideias de John Keynes, que pregava a necessária intervenção do Estado na economia para romper com a grave e profunda crise que se abateu sobre a economia capitalista no início do século.

O liberalismo de Adam Smith segundo o qual a “mão invisível”  do mercado regularia as crises periódicas do capitalismo, recolocando nos eixos a economia, sucumbiu à maior das c uses até então enfrentada, cujo estopam foi  a fantástica queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929. A intervenção do Estado era considerada por esta  corrente do pensamento econômico não apenas desnecessária, mas também danosa

Coma perda de prestigio do liberalismo, surgiu uma nova orientação em matéria de política econômica. O Estado capitalista passa a ser determinante para a da economia, sendo um fator  importante para a adoção deste caminho a necessidade de fazer frente às experiências socialistas no leste europeu. Nas décadas seguintes o capitalismo vive o seu esplendor - são os anos durados, um período de grande expansão da economia capitalista.

Este cicio se completou com a crise do petróleo nos anos 70 e uma fase de estagnação econômica dos países centrais. Segue-se, a crise de financiamento da dívida externa nos países de economia dependente, abrindo espaço para o ressurgimento do liberalismo, desta vez o neoliberalismo.

A base desta orientação continua sendo o discurso do afastamento do Estado da economia, o desmonte de todo o aparato jurídico e Institucional que pudesse, na concepção dos neoliberais, impedir o livre funcionamento do mercado. Assim, justificou-se a privatização de empresas públicas, a redução de barreiras que restringissem o comércio internacional, a eliminação de barreiras à livre circulação de capitais por todo o muno, a abdicação pelos governos de implementar políticas industriais, entre outras medidas.

Neste sentido é que também o mercado de trabalho passou a sofrer forte desregulamentação. Sob o argumento de que este mercado fora excessivamente normatizado, resultado em um “custo” do trabalho muito alto, tornava-se imprescindível a flexibilização, entendida como restrição aos mecanismos de proteção ao trabalho.

A redução dos custos de contratação e de dispensa da força de trabalho é apontada como a forma de combater o desemprego. Segundo esta lógica, é preciso impedir que interferências indesejadas alterem a dinâmica “natural” do mercado e o retorno ao equilíbrio dos fatores.

Ao que tudo indica, o fortalecimento desta abordagem teórica que hegemoniza ainda hoje o pensamento econômico, além das razões decorrentes dos problemas de financiamento do Estado, encontrou o campo fértil da crise de concepções alternativas, abaladas que foram com fim do socialismo soviético.

Duas décadas depois de começar a ser Implementado mundo afora, o receituário neoliberal enfrenta críticas e revisões frequentes, demonstra crescentes dificuldades na resolução dos problemas econômicos, especialmente o desemprego. Neste sentido, a polêmica mais-Estado versus menos-Estado evidencia-se falsa do ponto de vista da economia capitalista. O afastamento do Estado da economia, em particular do mercado de trabalho, não tem resolvido o problema do desemprego na imensa maioria dos países, tendo contribuído, isto sim, para a ocorrência de uma maior instabilidade da relação empregatícia,  agravando as possibilidades de sobrevivência dos trabalhadores à recessão.

Gazeta da Bahia. Gazeta Mercantil. Salvador, quinta-feira, 7 de outubro de 1999


Publicado no caderno Bahia do jornal Gazeta Mercantil
7 de outubro de 1999

30 setembro, 1999

A Ford e a guerra fiscal

 

                                                                                                                        Nilton Vasconcelos

Publicado na Revista Debate Sindical Edição de nº 31, de 1999





03 junho, 1999

25 abril, 1999

MUDANÇAS ESTRUTURAIS E INOVAÇÕES ORGANIZACIONAIS NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA


Publicado na revista Conjuntura e Planejamento N.66. SEI, Governo da Bahia. Ano 1999

FRANCISCO L. C. TEIXEIRA*
 NILTON VASCONCELOS**

A indústria automobilística mundial está passando por um profundo processo de reestruturação. Em linhas gerais, pode-se dizer que este processo é motivado, por um lado, pelo acirramento da concorrência nos principais mercados devido à entrada de novos concorrentes. Na década de 80, as empresas automobilísticas japonesas passaram a exportar maciçamente para os mercados americano e europeu, desafiando a hegemonia das três principais montadoras americanas (GM, Ford, Chrysler).

INTRODUÇÃO
A indústria automobilística mundial está passando por um profundo processo de reestruturação. Em linhas gerais, pode-se dizer que este processo é motivado, por um lado, pelo acirramento da concorrência nos principais mercados devido à entrada de novos concorrentes. Na década de 80, as empresas automobilísticas japonesas passaram a exportar maciçamente para os mercados americano e europeu, desafiando a hegemonia das três principais montadoras americanas (GM, Ford, Chrysler), e ameaçando a sobrevivência de várias congêneres européias. Ainda naquela década, as montadoras japonesas iniciaram um rápido processo de investimentos diretos nesses mercados, em alguns casos através de parcerias com suas próprias concorrentes. Já na década de 90, a entrada das empresas coreanas nessas mesmas regiões veio acirrar ainda mais a disputa pelos consumidores. O caminho das coreanas era, até a crise de 1997, o mesmo seguido pelas japonesas: os investimentos diretos foram precedidos de exportações, que se constituíram em um meio indispensável para aprender a operar nos mercados-alvo.

Por outro lado, os mercados dos países fortemente industrializados começam a apresentar sinais de maturidade ou saturação na presente década: de 1988 a 1997, a produção mundial de automóveis cresceu apenas cerca de 10% (Anfavea, 1998). Segundo The Economist (1997), a indústria automobilística mundial convive com uma supercapacidade de produção, que tende a aumentar, atingindo uma capacidade ociosa correspondente a 22 milhões de unidades ao final do ano 2000. Neste contexto, a América Latina, assim como partes da Ásia, são mercados promissores, em vista da saturação existente na Europa e nos Estados Unidos. Por exemplo, em 1994, a relação habitantes por veículo nos EUA era de 1,3 e na Itália, 1,8; enquanto que na Argentina era de 6,0 e, no Brasil, de 10,9 (Teixeira e Vasconcelos  Jr., 1997).

O resultado de tal conjuntura mercadológica é que as empresas, tanto na Europa como nos Estado Unidos, estão lucrando com a venda de caminhões, pick-ups (comerciais leves) e serviços financeiros, mas não conseguem obter nenhuma margem no mercado de carros de passeio (The Economist, 1999). Esta situação ajuda a explicar o volume de investimentos previstos para o Brasil nos próximos anos, estimulados pela política industrial conhecida como Regime Automotivo, inclusive a instalação da Ford na Bahia.

O processo de reestruturação em curso é resultante, portanto, da tentativa das empresas automobilísticas, em escala global, garantirem ou ampliarem suas vantagens competitivas em relação aos concorrentes. Pode-se identificar dois principais movimentos no processo, implicando profundas mudanças nas estratégias competitivas. O primeiro toma a forma de fusões e incorporações: a compra da divisão de carros de passeio da Volvo pela Ford, a fusão Chrysler-Daimler e os rumores sobre a venda da Fiat são os mais recentes exemplos desta movimentação que, ao que tudo indica, resultará em um número de concorrentes cada vez menor no mercado mundial.

O outro movimento é representado pela reformulação das estratégias de produção. Pelas evidências disponíveis, as empresas automobilísticas estão tentando seguir uma linha que as transforma de fabricantes de veículos em vendedoras de serviços de consumo. A Ford, por exemplo, já é sócia da Hertz no negócio de aluguel de carros; comprou recentemente uma rede de lojas que trabalha com reparos de freios e amortecedores na Europa (KwitFix); está comprando negócios de ferro-velho (scrapyards) e expandindo nas áreas de leasing e crédito ao consumidor (The Economist, 1999). A esta integração para frente corresponde uma retirada dos segmentos a montante: as empresas estão vendendo suas própria fábricas de autopeças de acordo com a tendência de se desvencilharem, cada vez mais, das atividades diretas de produção. Comenta-se no ambiente da indústria que a Volkswagen, por exemplo, já teria definido uma linha estratégica que a levará, no médio ou longo prazos, a se transformar em uma empresa de projetos, marketing e serviços, sem atividades diretas de produção.

O objetivo deste artigo é descrever e analisar as mudanças na organização da produção que estão sendo introduzidas pelas principais montadoras em seus novos investimentos no Brasil, com especial atenção ao caso da Ford. Parte-se do pressuposto de que tais transformações são parte das estratégias brevemente descritas nesta introdução e que estão relacionadas à reestruturação em curso na indústria automobilística mundial. Inicialmente, são apresentados os novos arranjos produtivos, conhecidos como Consórcio Modular (Volks) e Condomínios Industriais (GM e Ford). Os arranjos são comparados ao sistema de “produção enxuta” (Just in time), que teve origem na Toyota. Nas conclusões, procura-se entender o significado destas mudanças na organização da produção, à luz dos novos delineamentos estratégicos que são traçados pelas grandes empresas.

AS NOVAS CONCEPÇÕES DE ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

Para fazer uma análise das inovações organizacionais da produção automotiva no Brasil, levaremos em consideração o seu desenvolvimento frente àquelas práticas industriais tomadas como padrão mundial a ser perseguido, no caso, o sistema desenvolvido no Japão.

Entre as mudanças organizacionais da produção automotiva, sobressaem-se aquelas que visam a aproximação espacial entre fornecedores e montadora. Mais que uma estratégia de suprimento local (local sourcing), as inovações na área promovem uma profunda transformação no processo de produção, no que poderia ser visto como uma radicalização da estratégia japonesa Just in Time (JIT)1.

Coriat(1994) chama a atenção para o fato de que, normalmente, o Just in Time é entendido como uma forma de reduzir estoques e diminuir custos. O autor, no entanto, diz que Ohno insiste que se trata, fundamentalmente, de um processo cognitivo, “um princípio permanente de tensão, que tem como objetivo [...] conseguir, na empresa, a internalização da gestão da mudança (p. 173).”

Uma particularidade do sistema japonês, que influenciou decisivamente a forma de produzir no final do século 20, é a estreita relação desenvolvida entre os fornecedores e a empresa principal, seja na constituição de um grande conglomerado de empresas com participações acionárias cruzadas – os keiretsu2 -  seja no grau de exigência imposto pela empresa contratante no que se refere a qualidade, prazos e custos.

A este respeito, Coriat (1994) recorre aos trabalhos de Asanuma sobre as relações entre empresa principal e empresa subcontratada nas indústrias automobilística e da construção elétrica japonesas, desenvolvendo um quadro conceitual sobre a relação de subcontratação. As principais características do sistema de subcontratação, segundo Coriat (1994), seriam:
· uma relação de longo prazo, cuja duração é determinada por todo o ciclo de vida do produto;
· a relação é institucionalizada e hierarquizada;
· a relação contratual é objeto de processos particulares (negociações ad-hoc);
· é uma relação que favorece e ‘internaliza’ a inovação nas empresas.

Portanto, o sistema de subcontratação conduz a uma relação duradoura de compromisso entre as partes, desde o desenvolvimento do projeto, onde as montadoras desempenham um papel predominante, exigindo dos fornecedores procedimentos adequados aos seus interesses produtivos. Crescentemente, as montadoras vêm buscando terceirizar ou transferir para os fornecedores atribuições que antes eram consagradas como atividades típicas dos fabricantes de autoveículos. Consequentemente, as montadoras, cada vez mais, recebem não somente peças mas, também, componentes complexos já montados. Para se ter uma idéia, enquanto, tradicionalmente, as montadoras ocidentais trabalhavam com 1.000 a 2.000 supridores diretos, as japonesas lidam com um número que pode variar de 100 a 200.

O resultado é que, enquanto na produção fordista ocidental as montadoras são responsáveis pela fabricação de 70% dos componentes que utilizam, no sistema Just in Time este número fica reduzido a apenas 30% (Prindle, 1996). Os efeitos sobre a redução de estoques e logística de produção podem ser facilmente deduzidos.

Na tentativa de fazer frente a esse padrão de competição japonesa, busca-se, hoje, nas empresas ocidentais, a estruturação de uma “cadeia totalmente integrada”, cujas características são assim sistematizadas (Zawislak, 1999):
· produção de carros mundiais com tecnologia mundial;
· atendimento dos mercados locais com produção local;
· referências globais (e não modelos fechados) para adaptação de novos arranjos produtivos regionais;
· desverticalização (montadoras transferem atividades que agregam menor valor);
· parcerias tecnológicas e produtivas ao longo da cadeia;
· desenvolvimento simultâneo de produto e processo;
· sistemas bem estruturados e ferramentas de qualidade consistentes;
· logística totalmente integrada com fornecedores.

Esta tendência à integração produtiva, num primeiro momento, traduziu-se na constituição de distritos industriais em que as empresas que formavam uma cadeia de clientes/ fornecedores, buscavam reduzir seus custos de transporte de produtos/ mercadorias, assistência técnica e manutenção industrial através de uma localização mais próxima entre elas. A política de local sourcing da Fiat, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, constitui um exemplo recente deste tipo de arranjo.

Uma radicalização de tal princípio organizacional levou à experiência da fábrica da Vokswagen no município de Resende – RJ: o Consócio Modular. Mais recentemente, a Ford e a General Motors desenvolvem projetos industriais que se colocam em posição intermediária entre os distritos industriais e o consórcio modular, denominados condomínios industriais. Nesta última categoria é que estaria enquadrada a planta industrial que a Ford pretende implantar na Bahia, o projeto Amazon.3

Consórcio Modular

O Consórcio Modular foi idealizado pelo engenheiro de origem basca José Ignácio López de Arriortúa. Conhecido por ser a figura central de rumoroso noticiário e ferrenha guerra judicial travada entre a Volks e a General Motors, foi acusado, por esta última, de espionagem industrial. O próprio idealizador não poupou elogios à sua criação: “terceira revolução industrial”, ou ainda, “substituição da linha de montagem criada por Henri Ford”, referindose à fábrica modelo que foi implementada pela Volkswagen em Resende, Rio de Janeiro, para a fabricação de caminhões.

A base do sistema é a “terceirização radical”. O fornecedor, ou parceiro, é responsável pela montagem e garantia dos “módulos de montagem”, cabendo à Volks a supervisão e teste dos caminhões e ônibus. Assim, apenas 15-20% dos empregados são da própria montadora.
Oito fornecedores participam do projeto. A Iochpe-Maxion se encarrega do chassi, sistema de freios, chicote elétrico, linhas de combustível e transmissão e caixa de direção; a Rockwell cuida dos eixos, suspensões, molas e amortecedores; a Remon fornece as rodas e os pneus montados; a MWM e Cummins se responsabilizam pelo motor, montagem de embreagem, caixa de mudanças, sistema de direção hidráulica, entre outros; a Eisenmann, pela pintura das cabines; a Tamet, pela montagem da cabine; a VDO, pelos bancos, painel, revestimentos e montagem da cabine com o chassi. A Figura 1 apresenta um diagrama do sistema.

O edifício no qual funciona a fábrica é da Volkswagen, mas cada condômino (fornecedor) é responsável pelo seu espaço, com área própria de carga e descarga, evitando o trânsito de estoques pelas áreas comuns. Um funcionário da Volks, denominado maestro ou mestre, tem acesso às áreas dos fornecedores, com a função de supervisionar a produção. Só na etapa final os demais empregados da montadora alemã participam do processo de produção, executando o teste dos veículos já montados.
Com as inovações, a Volks esperava reduzir em 20% o custo final do produto. Entre as dificuldades apontadas pelos gerentes da montadora, que se transformou em uma espécie de administradora de produção, está o ajuste entre os ‘parceiros’: empresas de nacionalidade, filosofia, mentalidade empresarial e engenharia de processos diferentes. Assim, para evitar maiores desencontros e incompatibilidades, a Volks teria procurado padronizar o que havia de mais avançado nos fornecedores em termos de software, política de treinamento e controle de qualidade.

Duas das mais conceituadas instituições de pesquisa do país, a Universidade de São Paulo e a Fundação Getúlio Vargas, desenvolvem um projeto de acompanhamento da implantação do Consórcio Modular, considerado como uma importante experiência. Entre os aspectos inicialmente relacionados para observação estavam:
· acirramento de tensões e conflitos entre montadora e fornecedores, considerados como sócios minoritários, porque não apenas fornecem módulos, como dividem riscos do investimento e passam
a ter maior participação nas decisões;
· desafio da coordenação das etapas de produção e montagem entre os fornecedores;
· os benefícios de contratos de longo prazo e acesso a mercados internacionais.

Muita especulação tem surgido sobre os resultados do ‘Consórcio Modular’. Em fins de 97, um jornal alemão noticiou, citando fontes da própria montadora, que a planta enfrentava sérias dificuldades no relacionamento com fornecedores, produzia veículos antiquados e as vendas eram mínimas. As montadoras concorrentes, em especial a Mercedes-Benz (líder no mercado de caminhões no país) e a Scania, de início, apontaram o gerenciamento da nova fábrica como um grande desafio, pois “não mais um, mas dez estariam mandando” - referência ao papel que passariam a desempenhar os novos parceiros. Um ano antes de iniciar a produção regular, o representante da Scania considerava a operação ‘difícil’, avaliando que qualquer falha poderia provocar uma interrupção da cadeia.

A experiência do Consórcio, entretanto, parece multiplicar-se, ainda que adaptada a diferentes situações. A própria Volks fez investimentos em São Carlos - SP para produzir 1.200 motores/dia, com 550 empregados, adaptando o sistema do Consórcio Modular implantado no Rio de Janeiro. A empresa espera reduzir o preço final do carro entre 10-15%, com a mudança no processo de produção de motores.

Por sua vez, a Mercedes está adotando um novo sistema de produção na fábrica de São Bernardo do Campo, inspirado no sistema Just in Time da Toyota (Gazeta Mercantil, 27/07/99). A idéia central é a redução de estoques através da criação de “supermercados” de peças no interior da planta, que se conectam com células de manufatura e/ou fornecedores diretos. Segundo a Gazeta Mercantil, com esse sistema, obteve-se, em quatro anos, uma redução dos custos com estoques de US$ 130 milhões e um aumento da produtividade em 43%. A planta é considerada a benchmark da empresa e está sendo negociada com a Chrysler como futuro padrão de produção da nova empresa resultante da fusão.

Os condomínios industriais

Outras montadoras também iniciam experiências similares. A General Motors produzirá um carro de pequena potência, derivado do Corsa, com preços 20% mais baixos que os concorrentes, numa nova fábrica em Gravataí, Grande Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a partir da utilização de um “sistema modular”. O  modelo do carro foi totalmente desenvolvido no Brasil e será produzido de acordo com um sistema inédito na empresa.

Diferentemente da fábrica de Resende, no caso da GM haverá uma separação física entre os fornecedores diretos, instalados dentro da planta, denominados sistemistas, e as instalações da própria montadora (Figura 2).

No sistema da GM, apenas um fornecedor de primeira linha não estará instalado dentro do próprio site. Permanece sob a responsabilidade da montadora um número maior de tarefas, entre elas a estamparia, que não será repassada aos sistemistas. A logística relaciona duas práticas: entrega seqüenciada e milk run4 , garantindo que a entrega de componentes na planta da GM seja feita com uma precisão de minutos.

Já o projeto Amazon, da Ford, está sendo desenvolvido nos EUA. Tomando-se por base as informações divulgadas quando do processo de instalação da fábrica no Rio Grande do Sul, o projeto também pode ser classificado como do tipo Condomínio Industrial. Contudo, algumas diferenças em relação à planta da GM podem ser observadas.

Os fornecedores diretos, denominados moduleiros, também estão localizados dentro do site, mas a disposição destes se dá em torno da instalação principal da Ford, observando-se uma maior integração entre montadora e fornecedores. Fazendo uma comparação entre o modelo organizacional do Projeto Amazon e os modelos da GM e da Volks, poder-se-ia afirmar que a Ford representa um tipo intermediário, ou seja, não há uma integração radical como em Resende, mas também não há uma separação física tão marcante como na planta da GM, como pode ser observado na Figura 3.

Um aspecto positivo do projeto da Ford, do ponto de vista da economia baiana, é que ele5 deve trazer, juntamente com a montadora, dezessete fornecedores modulares, além de outras quinze empresas “satélites”, fabricantes de matérias-primas e subsistemas. Caso estes planos se concretizem, o novo complexo deve representar um novo salto na industrialização local.

No entanto, dois problemas devem ser observados. Primeiro, com o sistema, a Ford está, na verdade, dividindo o risco do empreendimento com seus fornecedores. O investimento não será bancado apenas pela montadora, mas por todo o “condomínio”. Assim, a exposição da Ford se reduz significativamente. Segundo, as fornecedoras modulares deverão ser todas, totalmente ou majoritariamente, de capital estrangeiro. Isto significa que os novos sistemas de produção contribuem para a rápida desnacionalização da indústria de autopeças brasileira, uma das conquistas negociadas quando da instalação das primeiras montadoras na década de 50.

É importante mencionar que este projeto representa, talvez, a última oportunidade da Ford na América do Sul. Depois da desastrada associação com a Volks na Autolatina, a empresa viu sua fatia de mercado se reduzir paulatinamente, alcançando, hoje, somente cerca de 8% do mercado brasileiro de automóveis. Dados seus planos de expansão global e o potencial de mercado do Mercosul, a fábrica baiana reveste-se de especial importância estratégica para a empresa, a julgar pelas mudanças que ela vem anunciando no Brasil.

CONCLUSÕES

Conforme já foi divulgado pela imprensa(6) , o Brasil tornou-se um campo de provas para os experimentos com a organização da produção das montadoras automobilísticas. Na tentativa de enfrentar a concorrência dos orientais, as empresas estão implementado projetos de produção que radicalizam os conceitos desenvolvidos e implementados, inicialmente, pelas empresas japonesas.

A busca de flexibilidade parece ser uma meta comum de todas estas inovações organizacionais. Porém, o termo flexibilidade pode ser definido de várias maneiras. Na verdade, podem coexistir diversos tipos de flexibilidade: em relação à mão-de-obra (polivalência, terceirização), em relação ao mercado (ampla linha de marcas e modelos), em relação à produção (organização celular), suprimentos (Just in Time). No caso dos novos modelos de produção experimentados pelas montadoras no Brasil, parece que o objetivo é buscar, além dos tipos de flexibilidade mencionados, uma nova modalidade: a flexibilidade em relação a montante e risco do investimento.

Ao compartilhar com dezessete outras empresas, os investimentos necessários para a produção de uma linha de automóveis, a Ford, por exemplo, reduz substancialmente sua exposição no projeto. Ela está repassando para as “moduleiras” parte das necessidades do capital exigido pelo projeto. Deste modo, está dividindo também o risco do investimento: torna-se mais fácil para a Ford descontinuar o projeto e reiniciá-lo em qualquer outra parte do mundo, caso as condições na Bahia não permaneçam favoráveis. Ela não está firmando apenas contratos de fornecimento com as “moduleiras”, mas sim compartilhando o investimento e seus consequentes riscos. Parece que este tipo de relacionamento com fornecedores faz parte da estratégia não só da Ford, mas de várias outras montadoras ocidentais, no sentido de ocuparem, cada vez mais, os segmentos a jusante da cadeia produtiva, tornando-se empresas de serviços de consumo.

Do ponto de vista da economia local, é evidente que o projeto da Ford representa um importante salto na evolução industrial da Bahia, caso o projeto seja realizado conforme divulgado pela imprensa. Porém, algumas dúvidas podem ser levantadas. No caso da Volks em Rezende, os hotéis e os segmentos imobiliário e de construção parecem ser os maiores beneficiários do empreendimento até agora. A expectativa gerada na população é compreensível, dada a guerra fiscal empreendida pelos estados brasileiros. Assim, os governos estaduais fazem grande propaganda acerca da criação de dezenas de milhares de empregos para justificar os subsídios oferecidos às montadoras, sem que se tenha, ao certo, a verdadeira dimensão do potencial dinamizador destas instalações industriais para as economias regionais.

No caso da Volks em Rezende, a Gazeta Mercantil já registrava a frustração que imperava na cidade, depois de um ano de grande expectativa, sobre os impactos na geração de novos empregos e no aquecimento da economia local. Não se emprega 1.500 trabalhadores entre um carnaval e outro, nem se investe 300 milhões de dólares em poucos meses, registrava o jornal. Dos 400 já empregados na data de publicação da reportagem, 160 vieram de fora do Estado e 240 eram da comunidade local. Devido ao grande desemprego da região, agravado com a migração decorrente do anúncio da fábrica, a Volks apresentava-se como uma das poucas alternativas de emprego. Espera-se que a mesma situação não seja experimentada por nossa região nos próximos anos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, A S. L. RIBEIRO, C. E. S.; MANFREDI, G. ROZENFELD, H. (1999). Planejamento do processo de fabricação no conceito de Consórcio Modular Volkswagen – um caso prático. Capturado em 17 de setembro de 1999 na internet: http://www.ksr.com.br/ sae97.htm.
ANFAVEA (1998). Anuário Estatístico. São Paulo.
CORIAT, B. (1994) Pensar pelo Avesso: o modelo japonês de trabalho e organização. Rio de Janeiro: Revan : UFRJ.
GAZETA MERCANTIL, (1999), Ford confirma Interesse em se instalar no Estado, Gazeta da Bahia, 17/06/1999.
GAZETA MERCANTIL, (1999), Fábrica do ABC é padrão mundial da Mercedes, 27/07/99.
GAZETA MERCANTIL, (1999) Relatório Indústria Automobilística. Campo de provas de inovações. 3 /9/1999.
PRINDLE, T.K. (1996), Keiretsu: Translator’s Introduction, em SHIMIZU, I., The Dark Side of Japanese Business. Nova York: M. E. Sharpe.
TEIXEIRA, F. L. C. & VASCONCELOS, N. (1997) Regime automotivo, maquiladoras mexicanas e indústria coreana: lições para a Bahia. In: Bahia, Análise e Dados, Salvador, SEI, v.7, n.3, p. 118-140.
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THE ECONOMIST, (1999), The revolution at Ford,  07/08/99.
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ZAWISLAK, P. A. (1999), Diagnóstico automotivo. A plataforma tecnológica da cadeia automotiva do RS. Porto Alegre: UFRGS/PPGA/NITEC/ FIERGS.
NOT NOT NOT NOT NOTA A A A A
1 O sistema de produção Just in Time (produção apenas a tempo) tem recebido muitos nomes: Produção Enxuta (Lean Production), Toyotismo, Ohnismo, Kanban, etc. Neste artigo denominaremos por Just in Time o sistema de produção que teve origem na Toyota, nos anos 50, a partir das idéias do engenheiro Ohno.
2 Prindle (1996) define um keiretsu como uma extensa rede de relações de negócios e organizacionais. Kei significa “canal” e retsu “linha”. Portanto, podemos pensar em keiretsu como o grupo de negócios, ou guilda. Na verdade, trata-se de uma sociedade de negócios baseada em investimento de capital, contratos de negócios ou ambos.
3 É importante observar que não existem informações precisas sobre o projeto. A descrição apresentada neste artigo é baseada em fontes indiretas. Sabe-se que o projeto final ainda se encontra em fase de acabamento, em Detroit. Isto significa que tanto o modelo do carro (Amazon), como o projeto da planta podem sofrer alterações.
4 O milk run é um sistema que permite a coleta de peças com hora marcada e quantidades pré-determinadas, sendo realiza
da pela GM junto a fornecedores de menor porte (ZAWISLAK, 1999).
5 De acordo com a imprensa (Gazeta Mercantil, 17/06/99).
6 Gazeta Mercantil, 11/8/99.

*Francisco L.C. Teixeira é professor do Núcleo de Pós-Graduação em Administração da UFBA.
**Nilton Vasconcelos é professor da UCSal e doutorando pela UFBA.


20 abril, 1999

Guerra fiscal, montadoras e disputas regional


                                                                    Francisco Teixeira 
                                                                 Nilton Vasconcelos


Publicado no caderno Bahia do jornal Gazeta Mercantil, em 20 de abril de 1999

29 março, 1999

Todos devem ser convidados ao baile

Elizabeth Loiola
Nilton Vasconcelos

Publicado no caderno Bahia do jornal Gazeta Mercantil
29 de março de 1999

17 março, 1999

Acordo emergencial e renovação de frota

                                                                          Nilton Vasconcelos


Publicado no caderno Bahia do jornal Gazeta Mercantil
17 de março de 1999

16 julho, 1998

Sobre a redução da jornada de trabalho


                                        Nilton Vasconcelos

Publicado no caderno Bahia da Gazeta Mercantil
16 de julho de 1998

06 maio, 1998