26 abril, 2009

A demissão imotivada e o mercado de trabalho no Brasil

Nilton Vasconcelos

Um aspecto que chama a atenção quando se analisa a evolução do mercado de trabalho no Brasil, em 2008, é a gigantesca movimentação expressa pelo número de demissões e contratações. A fonte de informação é o Ministério do Trabalho, baseado principalmente no Caged - Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.
Mensalmente, em particular nos últimos meses em que a crise econômica se alastrou, é grande a expectativa que cerca a divulgação dos dados do Caged, um importante indicador do desempenho da economia. Ao final de cada ano, a informação mais divulgada é o saldo, ou seja, o resultado da conta de admissões menos desligamentos, ao longo de um ano.
Em 2008, o saldo foi positivo mais uma vez, resultando em 1,45 milhão novos postos de trabalho. Um número invejável, se compararmos com os Estados Unidos, que perderam 2,6 milhões empregos no mesmo período. Mesmo assim, o saldo do emprego no Brasil poderia ter sido muito mais expressivo não fosse a perda de 654.946 postos, apenas em dezembro, mês que tradicionalmente apresenta números negativos em função das contratações temporárias.


O que se quer destacar neste texto é a movimentação existente ao longo do ano no mercado de trabalho para se apontar o mencionado saldo. Preliminarmente, é importante que se saiba que, ao final de 2008, o estoque de empregos formais, celetistas, no país, foi de 30,4 milhões. Ocorre que destes mais de 30 milhões de trabalhadores, registrou-se nada menos que 15,2 milhões demissões (precisamente 15.207.128), ou 50% do estoque de empregos. Destes, 8,79 milhões foram desligados sem justa causa!
Portanto, só foi possível se obter um saldo positivo de 1,45 milhão de novos empregos em razão da contratação de 16,6 milhões (16.659.332) de trabalhadores. Como se vê, é uma movimentação expressiva, para dizer o mínimo, tendo se observado números similares em 2007.
Essas informações remetem ao debate sobre a Convenção 158, da Organização Internacional do Trabalho, que coíbe a demissão imotivada, uma das poucas Convenções da OIT que o Congresso Nacional brasileiro não ratificou. Um dos argumentos que fundamentaram a posição contrária à ratificação salientava que o país já impõe um dos maiores custos sobre as demissões e baixa flexibilidade na contratação, o que seria agravado com a incorporação da Convenção 158, inibindo a abertura de novos postos de trabalho em razão das dificuldades impostas para a rescisão desses contratos.
Na verdade, o que se percebe é que se os custos de demissão fossem efetivamente altos, provavelmente não se observaria um “giro” de 50% no mercado de trabalho a cada ano. Além da insegurança gerada entre os trabalhadores, há prejuízos enormes, como aqueles relacionados à perda dos investimentos em qualificação. Além dos recursos públicos não serem otimizados, a inversão privada na formação da mão-de-obra tende a ser limitada em razão da perspectiva de demissão, no conjunto do mercado de trabalho, de metade do estoque de empregos.
Naturalmente, não é um comportamento homogêneo no mercado de trabalho, em muitos casos há motivação relacionada às características sazonais de alguns setores econômicos, mas não são suficientes para se considerar aceitável o nível de demissões observados na economia brasileira.

16 abril, 2009

A experiência do sistema público de emprego na Bahia


O Sistema Público de Emprego Trabalho e Renda no Brasil inclui uma série de programas, em geral financiados com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, entre os quais se destacam o seguro-desemprego, o abono salarial PIS/Pasep, as ações de qualificação profissional e de intermediação profissional, bem como o estímulo à geração de emprego e renda por meio da concessão de microcrédito produtivo e orientado. A articulação adequada dessas várias partes da política aumenta a efetividade do sistema.
Na Bahia, uma experiência inédita tem merecido observações elogiosas por especialistas nacionais e estrangeiros. Trata-se do sistema de intermediação de mão de obra implantado pelo governo estadual a pouco mais de um ano: o SineBahia. A unidade de referência do serviço, localizada nas imediações do Iguatemi, em Salvador, materializa o novo modelo da estratégia de qualificação e inserção profissional no mercado de trabalho.
A intermediação de mão de obra é deflagrada com a captação de vagas, especialmente junto à iniciativa privada, vagas estas que são usualmente anunciadas ao público. Por seu turno, as empresas se dispõem a oferecer vagas a um serviço desta natureza se ele goza de credibilidade; se o contratante tem a certeza de que os candidatos à vaga encaminhados pelo serviço de intermediação, estão adequadamente compatíveis no perfil do posto de trabalho a ser preenchido. Quanto maior a eficiência neste encaminhamento, maior será a possibilidade de captar mais vagas, tornando o ciclo exitoso.
Assim, entre a captação da vaga junto à empresa e o encaminhamento do trabalhador, há um ponto crítico, que é o processo seletivo. É neste particular que o SineBahia vem obtendo bons resultados, em função da existência de um trabalho cuidadoso do setor de psicologia, bem como, das oficinas e cursos de qualificação profissional. Intermediação e qualificação de trabalhadores, conceitualmente devem ser tratadas de maneira articulada, mas nem sempre o foram ou são assim entendidos.
No SineBahia, trabalhadores que não obtiveram sucesso na pré-seleção para oportunidades de emprego, são convidados a participar de oficinas de português ou matemática a depender da deficiência que apresentaram. Cursos rápidos de técnicas de venda, qualidade no atendimento, telemarketing, informática básica e orientação para o trabalho também são disponibilizados regularmente, sempre com o objetivo de elevar a empregabilidade do trabalhador e otimizar a intermediação. Também passaram a ser ofertados cursos de 200 horas integrantes do Plano Territorial de Qualificação, alguns deles ministrados nas próprias instalações do SineBahia.
Desta forma, somente na unidade de referência, em Salvador, sem contar as unidades existentes nas unidades do Serviço de Atendimento ao Cidadão, são atendidos diariamente cerca de 800 trabalhadores que buscam o serviço com o objetivo de se inscrever no sistema, ou retornam para verificar se o seu perfil corresponde às vagas disponíveis. Vale ressaltar que os inscritos comparecem em função de convocação feita pelo serviço de intermediação ou por conta própria, motivados pelos anúncios veiculados cotidianamente pelo rádio, TV ou jornal.
Assim, os que se apresentam, antes de receber a Carta de Encaminhamento, precisam se submeter a testes aplicados pelo setor de psicologia, que realiza uma triagem. Ao final, em média, apenas três trabalhadores e trabalhadoras são encaminhadas para as vagas existentes.
Nos três primeiros meses deste ano de 2009, após a intensificação das ações de intermediação, foram captadas em todo o estado 27.396 vagas, encaminhados 55 mil trabalhadores e destes, 13.453 resultaram empregados através deste serviço – todo ele gratuito e financiado por convênio entre o Governo do Estado e o Ministério do Trabalho e Emprego.
O objetivo final é reduzir o tempo que as vagas ficam sem preenchimento, o que torna o mercado de trabalho mais efetivo. Ainda mais, quanto melhor o processo de seleção dos seus empregados, maior a produtividade da empresa, o que, em perspectiva, gerará mais empregos.
Estas ações vêm se somar a tantas outras adotadas pelo Governo da Bahia para gerar mais emprego, atraindo investimentos privados ou garantindo a sua permanência – com incentivos fiscais, parcelamento de débitos, etc. Mas, também, qualificando o gasto público e investindo, ao lado do governo federal, em obras de infraestrutura.
Crise se enfrenta com trabalho e com mais empregos para os baianos, e o SineBahia está diariamente comprometido com estes objetivos.

14 abril, 2009

A VALORIZAÇÃO DO TRABALHO DOMÉSTICO






Nilton Vasconcelos

Comemora-se, neste 27 de abril, o Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas. O trabalho doméstico caracteriza-se, segundo definição do Ministério do Trabalho e Emprego, pela ocupação do indivíduo "maior de 18 anos que presta serviços de natureza contínua (freqüente, constante) e de finalidade não-lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial destas."
Categoria de grande importância econômica e representatividade, o trabalho doméstico ocupa na Bahia um contingente de 457.981 pessoas ou 7,1 por cento da população economicamente ativa e 12% do emprego assalariado do Estado. Entre os ocupados no trabalho doméstico, 93% são mulheres, e 85% são de cor preta e parda.
De modo geral, o desemprego é maior entre mulheres que entre homens; é maior entre negros que brancos, o que faz deste contingente de mulheres negras um grupo social particularmente desprotegido. Assim, o rendimento médio da(o) trabalhador(a) doméstica(o) com carteira assinada é de R$393,76 caindo para R$184,76 entre os sem-carteira. Para agravar a situação, estimativas de 2006 apontam 6.600 crianças entre 10 a 14 anos, dedicadas a essa atividade. A precariedade das condições de trabalho também é refletida na duração da jornada de trabalho, que chega a mais de 49 horas por semana para 21% desses trabalhadores.
Como se vê, uma atividade de indiscutível relevância social não tem merecido a devida atenção dos empregadores. Na Bahia, apenas 15,4% dos empregados e empregadas domésticas têm carteira assinada, abaixo da média geral. Isto significa  que têm direitos trabalhistas essenciais desrespeitados, além de majoritariamente deixar de integrar o sistema previdenciário. Levando em conta essa situação é que a Conferência Estadual do Trabalho Decente, em 2007, apontou a necessidade de incluir o Trabalho Doméstico como um dos eixos prioritários da Agenda do Trabalho Decente da Bahia. Desde então várias iniciativas vem sendo adotadas, sempre em parceria com as organizações representativas, particularmente o Sindoméstico e a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas. A inclusão sistemática de cursos de qualificação profissional para as trabalhadoras domésticas é uma estratégia adotada pelo Governo da Bahia por meio da Secretaria do Trabalho, bem como a divulgação de uma cartilha sobre direitos e deveres distribuída nas unidades do SineBahia, a criação do site http://www.trabalhodomestico.ba.gov.br/ e o desenvolvimento de campanhas de estímulo à formalização do emprego. Outras ações governamentais visam contribuir para o resgate do direito à educação das trabalhadoras domésticas e para a sensibilização da sociedade quanto à importância do Trabalho Doméstico, visando inclusive o aumento da formalização do emprego,
A preocupação com a temática na Organização Internacional do Trabalho poderá evoluir para a adoção na Conferência Internacional de Trabalho, a se realizar em 2010, de uma Convenção específica objetivando regular a relação de trabalho neste setor.
Portanto, ainda que sejam muitos os déficits de trabalho decente neste segmento, são positivas as perspectivas de modificação deste quadro.

16 março, 2009

A DESTRUIÇÃO AINDA NÃO ACABOU


Nilton Vasconcelos

O terremoto cujo epicentro é o sistema financeiro dos Estados Unidos apresenta persistentes efeitos negativos, produzindo prejuízos astronômicos para os agentes econômicos. Por todo lado se vê destruição: de patrimônio, de empregos, de crédito. As tentativas de deter a fúria da economia parecem sempre insuficientes. Caso emblemático é a situação da seguradora AIG, na qual os governos Bush e Obama aplicaram em seis meses, recursos equivalentes ao valor de todos os bens e serviços produzidos no Chile em um ano, ou seja, um rombo do tamanho do PIB de uma importante economia da América do Sul. Calcula-se que as famílias estadunidenses perderam em um ano algo em torno de 11 trilhões de dólares do seu patrimônio.

Crescem os acampamentos dos que perderam suas casas e seus empregos no EUA, multiplicando no cotidiano daquele país cenas que lembram a crise de 29. O sistema financeiro europeu também sofre grandes perdas, assim como se observa o fechamento de incontáveis postos de trabalho.

Em todas as partes do mundo são registrados os impactos de uma crise anunciada. A escassez de crédito dificulta transações comerciais entre países e encolhe o consumo A iminente explosão da bolha imobiliária no EUA, um dos aparentes estopins da débâcle das finanças mundiais, foi assunto presente no noticiário televisivo e nos debates acadêmicos nos últimos anos, sem que decisões concretas fossem tomadas porque o pensamento econômico dominante não comportava as medidas que se faziam necessárias. Pois foi preciso que ocorresse uma hecatombe na economia para que fossem revistos os paradigmas, e providências nunca antes imaginadas por Wall Street, num verdadeiro “Contrasenso de Washington”, fossem adotadas levando à estatização de companhias e intervenção generalizada na economia, que fazem ainda agora, a herança intelectual de Adam Smith estremecer em agonia.

Mas se era evidente a crise financeira e de crédito em andamento, não se pode negar que há igualmente em gestação uma crise clássica de superprodução relativa. Ou seja, a geração de um excedente de produção que não é absorvida pelo mercado, não porque não haja necessidade de consumo destes bens, mas porque os consumidores não têm acesso aos meios para adquiri-los.

Como se sabe, no Oriente, e particularmente na China, mas também na Índia, Japão, Coréia do Sul, entre outros, a capacidade produtiva cresceu exponencialmente ao longo de muitos anos, gerando imensos superávits em seu comércio exterior.

Em grande medida este saldo positivo foi obtido em função da grande capacidade de financiamento do consumo, principalmente nos EUA e na Europa. Com a crise de crédito, alteram-se as bases da produção e do consumo. Os mercados asiáticos teriam que demonstrar enorme capacidade de absorção da produção para não gerar novos efeitos nefastos para o emprego e para as relações de trabalho. Sem mercado, as empresas reduzem a produção, encerram suas atividades ou são adquiridas por outras empresas. A elevação do desemprego impacta negativamente o consumo, levando a novas restrições na produção e no emprego, e simultaneamente, impactos sociais e políticos se evidenciam.

Na dinâmica do capitalismo, as crises devem promover em larga escala o fechamento de empresas, maior concentração do capital, eliminação de postos de trabalho, para que surja um novo ciclo de expansão econômica.

Por tudo isto é que não é excessivo afirmar que a destruição das forças-produtivas não aparenta ter chegado ao fim.

17 novembro, 2008

Video Trabalho Decente

Video apresentado na 97a. Conferência Internacional da OIT, Genebra, maio/junho de 2008, destacando a experiência baiana como a primeira Agenda sub-nacional

15 outubro, 2008

O papel da política industrial baseada na concessão de incentivos fiscais no processo de desconcentração e diversificação da indústria baiana no período de 1996 a 2006

 

Autor: Adriano Souza de Oliveira

Dissertação de Mestrado apresentada ao Núcleo de Pós-Graduação em Administração - UFBA , em 2008.

O papel da política industrial baseada na concessão de incentivos fiscais no processo de desconcentração e diversificação da indústria baiana no período de 1996 a 2006. Salvador, 2008. 128f.: Dissertação (Mestrado Profissional em Administração) – Escola de Administração UFBA, 2008. Esta dissertação analisa o papel da política industrial baseada na concessão de incentivos, sobretudo fiscais, no processo de desconcentração e diversificação da indústria baiana no período compreendido entre 1996 e 2006. O tema ainda não havia sido avaliado de forma sistemática, com base em uma compilação de dados coletados nos protocolos de intenções e em conjunto com a utilização de indicadores próprios da economia regional. A partir de uma pesquisa documental, analisou-se a distribuição regional e setorial das pretensões de investimento no estado, e, através do cálculo dos coeficientes de redistribuição e de reestruturação, buscou-se avaliar as possíveis alterações espaciais e estruturais da indústria estadual. O trabalho está estruturado em um capítulo introdutório, além de mais cinco capítulos. No segundo capítulo, discutem-se alguns conceitos de economia regional, com foco nas teorias de localização industrial e do desenvolvimento econômico. Em seguida, no terceiro capítulo, analisa-se o processo evolutivo da indústria baiana, ressaltando os aspectos conjunturais de cada etapa, com destaque para a política industrial baseada na concessão de incentivos e seus efeitos na economia estadual e no desenvolvimento regional. No quarto capítulo, discutem-se os aspectos metodológicos da pesquisa e, no quinto capítulo, seus principais resultados são apresentados, com a exposição dos dados coletados nos Protocolos de Intenções assinados no período compreendido entre 1996 e 2006, relacionando-os com indicadores econômicos das microrregiões do estado, bem como os resultados referentes aos cálculos dos coeficientes de redistribuição e de reestruturação. As conclusões do trabalho apresentadas no sexto capítulo indicam que, durante o período estudado, a Bahia passou por um tímido processo de reestruturação na sua matriz industrial, bem como uma modesta evolução no processo de desconcentração espacial de sua indústria. Os resultados sugerem ainda que os investimentos nos setores que mais se destacaram poderiam estar relacionados mais a outros condicionantes do que propriamente ao poder indutor da política industrial, estando esta, em sua maioria, atrelada ao aproveitamento de oportunidades e não a um processo estruturado de planejamento que redundasse em uma seleção mais criteriosa dos investimentos a serem atraídos. 

Íntegra aqui


13 agosto, 2008

Estratégia industrial e atração de investimentos










Nilton Vasconcelos

A temática da atração de investimentos industriais no setor automotivo tem freqüentado periodicamente o ambiente político e também o meio acadêmico, estimulando o debate em torno do papel das estratégias empresariais e da adequação destas estratégias às políticas públicas, que contemplam em geral benefícios fiscais e investimentos em infra-estrutura.
Assim foi há dez anos a polêmica em torno da implantação da Ford na Bahia, quando se procurou convenientemente enfatizar como decisiva a influência política dos governantes no processo, minimizando o papel da estratégia empresarial. Diferentemente, estudos acadêmicos produzidos à época procuraram interpretar a mudança da localização da fábrica da montadora, antes prevista para o Rio Grande do Sul, como resultante de uma decisão da empresa de mudar seu foco e priorizar a comercialização da sua produção no mercado da América do Norte ao invés de priorizar o Mercosul.
Relembremos que a segunda metade dos anos 90 foi marcada pelo que se convencionou chamar de segunda onda de investimentos automotivos no Brasil, com uma política industrial federal que pretendia responder às discrepâncias produzidas pela política econômica cuja valorização do câmbio resultou em enormes déficits na balança comercial. Naquela década, a produção nacional de veículos oscilava entre 1,5 milhão a dois milhões de unidades, superando a crise vivida nos anos oitenta, mas enfrentando desafios de incremento da produtividade industrial.
Naquele momento, as decisões das montadoras sobre a localização das novas plantas industriais foram fortemente influenciadas pelo que consideraram ser altos custos da mão de obra – uma referência aos acordos coletivos de trabalho negociados em anos anteriores, os quais passaram a ser desvantajosos para o patronato. Esta visão, que penalizava fundamentalmente o Estado de São Paulo, influenciou significativamente para que as novas e grandes fábricas de veículos automotivos fossem instaladas no Rio Grande do Sul (General Motors), Paraná (Renault), Rio de Janeiro (Peugeot), Bahia (Ford), entre outras. A Honda e Toyota com projetos de menor capacidade (15-20 mil veículos/ano) instalaram unidades fabris em municípios paulistas sem tradição na produção automotiva.
Este foi o pano de fundo da guerra fiscal que se estabeleceu entre os estados brasileiros na atração das novas fábricas da indústria automobilística, tradicionalmente associada à possibilidade de desenvolvimento de uma nova cadeia produtiva, de geração de empregos, e da simbologia de modernidade à qual está vinculada. Estes aspectos estimularam ainda mais os governos a ampliarem suas concessões.
Dez anos depois, o debate sobre um conjunto de investimentos automotivos volta a ocupar o cenário político, mas em condições bastante distintas. Nunca se produziu e se vendeu tantos veículos como agora. Enquanto os mercados mundiais mais importantes estão estagnados ou em queda, o Brasil se destaca ao lado de China e Rússia pelo crescimento das vendas internas. Este comportamento do mercado tem estimulado novos investimentos das montadoras em modernização, ampliação e construção de plantas industriais, destacando-se a decisão da Toyota em instalar uma unidade produtiva no país. Depois de analisar muitas alternativas, entre as quais a implantação da fábrica na Bahia, predominou a opção japonesa pelo município de Sorocaba-SP.
Entre as justificativas divulgadas ressaltam-se a proximidade do mercado consumidor e fatores relacionados à logística do fornecimento de insumos. Efetivamente, com o crescimento de 24,2% das vendas internas, devendo chegar a mais de 3 milhões de unidades comercializadas em 2008, ao tempo em que as vendas internas na União Européia caíram em 8,3%, o mercado local passou a ser destino preferencial da produção. Outros fabricantes – Volks, Ford, Mercedes e GM – já haviam anunciado investimentos na ampliação das suas unidades em São Paulo, sendo que nos centros tradicionais, em especial São Bernardo do Campo, os anúncios foram acompanhados de acordos de flexibilização de benefícios trabalhistas e carga horária.
Verifica-se, portanto, um novo quadro em que a localização das plantas automotivas voltou a privilegiar a proximidade dos grandes centros consumidores nacionais, em detrimento da prioridade nas exportações. Este novo quadro representa uma relativa perda de importância das políticas de desenvolvimento regional, bem como evidenciam o peso das estratégias empresariais em decisões desta natureza.

28 julho, 2008

Mais empregos para os baianos





O crescimento de oportunidades no mercado de trabalho que se observa é esperança de uma melhoria significativa na vida de centenas de milhares de trabalhadores da Bahia.
Neste um ano e meio de governo Jaques Wagner, foram criados 104.875 mil novos empregos com carteira assinada no Estado, segundo dados do Caged – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho. É um número expressivo se considerarmos que o saldo dos quatro anos anteriores somados foi de 168.267 empregos.
É importante destacar que com este desempenho positivo da geração de postos de trabalho em 2008, a Bahia terá pelo décimo ano consecutivo crescimento do nível de emprego. É um dado que indica boas perspectivas para o desenvolvimento econômico e social. Mais do que isto, mostra que neste ano e meio houve uma aceleração da criação de empregos, e de empregos com carteira assinada.
Uma análise dos novos empregos por setor produtivo revela que vários segmentos foram beneficiados, com ênfase na construção civil, na área de comércio e serviços, na agricultura e na indústria de transformação. Ou seja, o bom resultado é observado em todos os setores da economia.
Naturalmente, este desempenho decorre dos êxitos alcançados com a política macro-econômica e também pela política de consolidação e atração de investimentos expressa pelo programa Acelera Bahia. Ao mesmo tempo, as ações previstas no âmbito do PAC, do governo federal, criam a expectativa de investimentos que impactam desde já a economia local.
Na Região Metropolitana de Salvador, observa-se a redução da taxa de desemprego em 10% no último ano. Embora ainda figure como a mais alta entre as regiões metropolitanas pesquisadas, poderemos encerrar o ano de 2008 com uma taxa inferior aos 20% da população economicamente ativa desempregada, segundo a PED, o que não acontece desde o início da série histórica, em meados dos anos 90. A taxa de desocupação calculada pela PME - Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE, recém divulgada confirma esta tendência ao revelar o menor índice desde junho de 2002.
À estruturação de uma Agenda Bahia do Trabalho Decente, apontando para um conjunto de políticas públicas de valorização do trabalho, associam-se as intervenções de qualificação profissional e de intermediação de mão-de-obra.
A mudança da política para o trabalho é expressa também na implantação do SineBahia, que tem oportunizado ao setor produtivo o acesso a um serviço de intermediação de mão-de-obra de primeira linha, que ganha credibilidade junto ao setor empresarial pelo serviço diferenciado de seleção e qualificação de profissionais. Um serviço público, gratuito e de qualidade que contribui para uma maior e melhor produtividade do trabalho.
Este conjunto articulado de ações do Governo da Bahia nos dá a certeza de que teremos ainda muito mais a comemorar na melhoria dos indicadores de emprego e das condições de trabalho para os baianos. (Publicado em A Tarde de 26 de julho de 2008)

08 julho, 2008

Trabalho Decente: uma Agenda para a Bahia




Tatiana Dias Silva e Nilton Vasconcelos Júnior





Texto apresentado no Encontro da ABEP - Associação Brasileira de Estudos Populacionais




Introdução

Trabalho Decente é uma ocupação produtiva adequadamente remunerada, exercida em condições de liberdade, eqüidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna.
Esse conceito é proposto pela Organização Internacional do Trabalho em 1999 e tem sido assumido por vários chefes de Estado, sinalizando a disposição de incluir o trabalho como elemento fundamental nas estratégias de desenvolvimento e a convicção de que o trabalho decente é meio fundamental para inclusão social.
Procura-se sintetizar no conceito de trabalho decente o itinerário de debates, proposições e esforços na busca por melhores condições nas ocupações produtivas. Essa proposta concentra-se em quatro pilares, quais sejam: a geração de ocupações de qualidade, a extensão da proteção social, o fortalecimento do diálogo social e a garantia dos princípios e direitos fundamentais no trabalho. Indicados em Declaração da OIT, de 1998, esses princípios e direitos referem-se à liberdade de associação, eliminação do trabalho forçado e do trabalho infantil, além da eliminação da discriminação no emprego (OIT, 1998, 2008).
O debate sobre o trabalho decente vem acompanhado de dois importantes elementos: a noção de agenda e a perspectiva de inserção do conceito nas estratégias de desenvolvimento.
O convite ao desenvolvimento de uma Agenda para o trabalho decente, em diferentes níveis – global, hemisférico e nacional -, apresenta a idéia-força da integração de esforços baseada em um compromisso amplo e de longo prazo.
Como contraponto à centralidade dos fluxos financeiros no momento atual, o argumento daqueles que defendem a promoção do trabalho decente é trazer o trabalho para o âmago do debate sobre desenvolvimento, a fim de que melhores condições de trabalho seja o objetivo principal das ações e não sejam relegadas apenas à categoria de externalidades positivas esperadas das estratégias de crescimento que, muitas vezes, têm resultados tão exíguos, ou tão concentrados, que não chegam a se concretizar em melhorias reais para os trabalhadores e para a população.
A proposta do trabalho decente, em última análise, é um reconhecimento de que a pactuação entre governos, capital e trabalho poderá estabelecer, nos marcos do atual estágio do capitalismo, condições razoáveis para que o desenvolvimento reverta-se realmente em melhoria para todos. Nesse sentido, o trabalho é visto como elemento que, sem substituto, pode proporcionar sustentabilidade ao crescimento e às estratégias de desenvolvimento.
A despeito da importância das políticas de transferência de renda e de assistência social, identifica-se que apenas o trabalho pode permitir a emancipação de grande parcela da população, não apenas pelo poder aquisitivo que concede, mas pela repercussão política de “empoderamento” e pertencimento que o indivíduo pode conquistar em condições de trabalho realmente dignas.
É a partir desse contexto que este artigo pretende apresentar e analisar a experiência da Bahia no desenvolvimento de uma Agenda do Trabalho Decente, procurando identificar como uma Agenda desse tipo pode evoluir de forma a atingir tanto melhoria no acesso e nas condições de trabalho, como também meios para uma vida digna.
Tratar de uma Agenda apenas para a garantia ao trabalho, em um país cuja taxa de desocupação é de 8,7% (PME, 2008 - Taxa de desocupação em fevereiro/2008, para as regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.) já seria um grande desafio. Ao tratar de trabalho decente, considerando-se a acepção ampla e profunda do conceito, avalia-se que o déficit é ainda maior, quer nas questões de saúde e segurança no trabalho, participação dos jovens, pessoas com deficiência, entre outras.
Espera-se que esse esforço de sistematização converta-se em oportunidade de reflexão tanto para os atores que participam desse processo como para aqueles que possam contribuir para seu enriquecimento, com suas críticas e sugestões. Almeja-se também compartilhar esta experiência com aqueles que, acreditando na importância dessa iniciativa, desejem contribuir para implementação de outros projetos dessa natureza.
Esse texto se divide em mais três seções. Inicialmente retoma-se o conceito do trabalho decente, seu itinerário de formação e as relações que estabelece com a democracia e o desenvolvimento, no caso da experiência brasileira nesse campo.
A seção seguinte descreve a elaboração da Agenda Bahia do Trabalho Decente, dando ênfase à estratégia utilizada (estratégia emergente), bem como as dificuldades, limitações e reflexões que acompanharam o processo.
Por fim, são destacadas contribuições para processos análogos. São apontados os limites desta experiência e deste trabalho, além de se apresentar os encaminhamentos em curso para consecução da Agenda Bahia do Trabalho Decente.


1. Trabalho Decente, democracia e desenvolvimento

A noção de trabalho decente pode ser apreciada como um contraponto à crise global do emprego e à precarização do trabalho; uma tentativa de resgatar a centralidade do trabalho na sociedade.
O sentido do trabalho decente extrapola o âmbito estrito da relação laboral, para mediar conceitos chave nas estratégias nacionais, relacionadas à governança democrática e ao desenvolvimento, em uma relação dialeticamente integrada.
Os povos da América Latina têm participado de um momento especial em sua história, em que, como resultado de disputas, lutas e conquistas, podem hoje vivenciar, em sentido geral, ambiência política e institucional convergente com os ideais democráticos.
O exercício da democracia, no entanto, pressupõe não apenas a presença de condições legais e institucionais, mas, sobretudo, de possibilidades materiais e objetivas ao alcance dos indivíduos que compartilham um determinado território. Uma sociedade consciente de seus direitos, preparada e com meios para exercê-los de forma plena, constitui elemento fundamental para a consolidação da proposta democrática.
O direito a uma ocupação digna representa porta de entrada não somente para direitos fundamentais do trabalho, mas para a inclusão social compreendida de maneira ampla. Representa tanto uma solução de inclusão produtiva, como meio fundamental para elevação da auto-estima e auto-realização do indivíduo (SACHS, 2004). O sujeito que tem no seu trabalho via de emancipação, no campo econômico, social e intelectual, alcança meios para acessar – ou para requerer o acesso – aos demais espaços sociais.
A Agenda do Trabalho Decente é uma resposta global no sentido de promover, pela via do desenvolvimento, espaço efetivo para o exercício dos direitos humanos e sociais, no intento à busca da paz e do respeito à dignidade humana ─ em sua concepção mais abrangente ─, em um contexto mundial marcado pela precarização das relações laborais e violação de direitos.
A abrangência do conceito de trabalho decente, aliada à convergência que sua formatação guarda em relação aos anseios por um mundo do trabalho mais equânime e solidário, permite sua aspiração e adoção por sociedades e realidades diversas.
Por sua vez, uma sociedade embasada nos ideais democráticos deve ter como pauta obrigatória a ampliação e aprofundamento dos direitos humanos, a conquista de instâncias de diálogo social e o estabelecimento de padrões superiores de convivência e de exercício do poder e da participação. Nesse contexto, a demanda por estratégias de valorização do trabalho é conseqüência natural, em um processo dialético de construção de uma nova sociedade.
Para se alcançar o trabalho decente como aqui compreendido, o crescimento econômico é condição necessária, mas não suficiente. A efetividade desse projeto está condicionada a uma atenção especial para setores que gerem mais empregos e ao embasamento em mecanismos – públicos e da organização social – que permitam melhor distribuição das riquezas e melhor qualidade da ocupação ofertada. A estratégia de desenvolvimento precisa ser requalificada.
A visão de Sachs (2004, p. 25) corrobora com esse argumento, quando destaca o fenômeno do crescimento sem emprego, resultante de uma combinação de fatores, tais como:

• introdução agressiva do progresso técnico poupador de trabalho nas indústrias;
• renúncia a uma política de salários altos (o fordismo) sacrificados no altar de uma busca desenfreada de lucros financeiros e a conseqüente redução do ritmo de crescimento da demanda efetiva, uma das causas principais do crescimento pífio;
• deslocamento das produções intensivas em mão-de-obra para plataformas de exportação situadas em países periféricos que se satisfazem com a competitividade espúria, lograda por meio de salários excessivamente baixos, longas jornadas de trabalho e ausência de proteção social.

Nesse sentido, a pauta do desenvolvimento social não pode estar relegada às forças do mercado, como conseqüência da prosperidade geral. Antes, deve fundamentar-se em diretrizes consolidadas que garantam bem estar social.
Segundo Penna Filho (2006), esta foi a tônica da Cúpula de Copenhague , em 1995, reforçando-se como contraponto ao predomínio e exclusividade dos temas econômicos e da visão neoliberal na agenda internacional.

No fundo, tratava-se da compreensão de que o caminho trilhado de desenvolvimento econômico assentado em bases essencialmente liberais, ao sabor das diretrizes do livre mercado, era cada vez mais inviável tanto para a sociedade quanto para o meio ambiente. Enfim, começava-se a discutir a própria natureza da idéia de desenvolvimento (PENNA FILHO, 2006, p. 352).

A construção de uma Agenda traz como elemento de base um redirecionamento da visão de desenvolvimento, a partir do destaque ao trabalho. Os setores mais avançados da economia, em que o nível de pesquisa e desenvolvimento alavancam a produtividade, cada vez mais requisitam menos mão de obra. São fundamentais, por constituírem o núcleo modernizador, mas a eles devem ser articuladas atividades intensivas em mão de obra na cadeia produtiva (SACHS, 2004).
Além da geração de mais empregos, é preciso garantir que as ocupações existentes e as vagas criadas sejam geradoras de trabalho decente de fato. O papel repressor e fiscalizador do estado (amparado em uma consistente base legal existente) potencializará essa dimensão. Contudo, a regulação deve ser absorvida pela sociedade, constituindo instâncias de controle social e de garantia de direitos. Uma iniciativa nesse sentido é a adesão de várias organizações ao Pacto Nacional pela erradicação do trabalho escravo, no qual as instituições signatárias comprometem-se a não estabelecer relação comercial com empresas que mantiveram trabalhadores em situação análoga à escravidão, relacionadas no cadastro de empregadores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) (conhecido como “lista suja”), bem como comprometem-se a colaborar com ações contra essa prática.
Recentemente o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) incluiu em seus contratos de financiamento cláusula restritiva a empresas presentes na “lista suja” (THENÓRIO, 2008).


Trabalho Decente no Brasil

No Brasil têm-se observado significativo avanço na questão da valorização do trabalho, o que, contudo, não representa solução acabada para esta questão, mas sim disposição política e mobilização social para enfrentamento dos problemas relativos a esse tema.
Em 2006, em adesão ao objetivo global assumido pelo Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego consolidou suas diretrizes de ação na Agenda Nacional de Trabalho Decente.


A concepção de uma agenda de compromissos para promover o trabalho decente é uma proposta que visa integrar políticas e estabelecer ambiente e informações necessários para formação de parcerias. Ao reunir compromissos conjuntos, permite identificar lacunas, sobreposições, possibilidade de parcerias, além de proporcionar uma visão ampla, tanto dos problemas como das ações encetadas para seu enfrentamento. Visa também incluir, na pauta da sociedade, temas fundamentais, como o alcance a melhores condiçoes de trabalho.
Com esse propósito, a Agenda Nacional procura estabelecer três prioridades, quais sejam a geração de mais e melhores empregos, a erradicação do trabalho escravo e infantil e o fortalecimento dos atores tripartites.
Uma Agenda do Trabalho Decente em âmbito subnacional traz um enfoque local à proposta de promoção do trabalho decente, favorecendo, pela proximidade e nivel executivo dos atores, melhor operacionalizaçao do projeto, em tese. Contudo, Agendas locais guardam uma limitação significativa, uma vez que políticas voltadas para o trabalho decente não podem prescindir de ações amplas, em nível nacional, algumas das quais são de competência exclusiva da União. O poder central que, em última instância, é o articulador das políticas macro econômicas, deve estar alinhado com as ações locais, e direcionado a maior crescimento econômico.

2. Agenda Bahia do Trabalho Decente
Esse artigo, como exposto, tem como objetivo analisar o processo em curso de construção da Agenda Bahia do Trabalho Decente, identificando seus avanços e limites e contribuições para a incorporação desse conceito nas estratégias de desenvolvimento, dentro de uma governança democrática.
O início da discussão do trabalho decente na Bahia pode ser atribuído ao ano de 2003, quando, em Salvador, foi realizada a XIII Conferência Interamericana de Ministros do Trabalho, no âmbito da Organização dos Estados Americanos. Nessa ocasião, que reuniu 34 ministros do Trabalho, o compromisso de promoção do trabalho decente foi enfatizado .
Essa conferência foi presidida pelo então Ministro do Trabalho e Emprego do Governo brasileiro, Jaques Wagner (MTE, 2004). Quatro anos depois, como governador da Bahia, a rota de compromisso pelo trabalho decente é retomada na mesma cidade que acolheu a referida conferência.
Parte constituinte do governo da Bahia, a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia (Setre), em suas ações iniciais de planejamento, identificou o trabalho decente como linha mestra de ação.
Ao aprofundar o conhecimento sobre o conceito de trabalho decente, logo se percebeu que a proposta de uma Agenda do Trabalho Decente extrapolava a atuação da Setre e até mesmo da própria estrutura do governo do Estado. Para discutir e implementar uma estratégia sobre trabalho decente, com a abrangência a que o conceito direcionava, era necessário ampliar o debate e envolver outros atores que já desenvolviam ações nesse campo.
Um passo imediato foi conhecer melhor a experiência da Agenda Nacional do Trabalho Decente. Foram iniciados contatos com o Ministério do Trabalho e Emprego sobre o tema, tendo sido apresentados à proposta pela Assessoria Internacional.
Após os primeiros contatos com Organização Internacional do Trabalho, houve firme compromisso do Escritório da OIT no Brasil, que se comprometeu com a proposta e providenciou a organização de um grupo de trabalho específico para o projeto Bahia.
A construção da Agenda implicou a criação de instâncias de deliberação e consultas desdobrando-se, a saber: na realização de uma conferência estadual, criação de um Grupo Executivo encarregado da coordenação do processo, implantação de câmaras técnicas por temas prioritários para definição de linhas de ação e resultados esperados, elaboração de um guia reunindo as ações em implementadas no estado que concorrem para o trabalho decente, lançamento da Agenda e formulação de planos setoriais. No intuito de sistematizar a experiência e reunir subsídios para o delineamento de uma metodologia, passa-se, a seguir, à descrição dos procedimentos adotados.
Com a finalidade de ampliar o debate e socializar a proposta baiana, foi promovida a I Conferência Estadual do Trabalho Decente. Não se tratou de uma conferência convencional, com delegados eleitos e precedida de convocações municipais. Ao contrário, a Conferência foi concebida como um ponto de partida. A expectativa era reunir atores que pudessem contribuir no debate sobre as diretrizes de uma Agenda do trabalho decente, bem como socializar a proposta e o conceito.
A Conferência Estadual do Trabalho Decente teve como objetivo divulgar a temática do Trabalho Decente, sensibilizar os atores sociais e realizar uma ampla consulta como forma de obter subsídios iniciais para o processo de formulação da Agenda Estadual. Participaram da Conferência cerca de 400 pessoas, de mais de 90 municípios, durante dois dias.
Para o evento acorreram lideranças sindicais dos trabalhadores; representantes de entidades patronais; de organismos governamentais, sobretudo do estado; organizações não governamentais e pessoas interessadas.
A importância concedida à Conferência pelo governo estadual pode ser medida pelas presenças registradas na abertura do evento: o Governador do Estado, o Presidente da Assembléia Legislativa, o Prefeito da Capital, entre outras autoridades.
A Conferência foi conduzida de forma a assegurar ampla participação com o funcionamento de grupos de trabalho, após a realização de palestras da Diretora do Escritório da OIT no Brasil e do Secretário do Trabalho sobre o conceito de Trabalho Decente e a proposta para o estado.
Após dois turnos de discussão, os grupos de trabalho formularam propostas de acordo com temáticas pré-estabelecidas: Geração de trabalho e renda e juventude; Proteção Social e condições de trabalho; Igualdade de oportunidade e tratamento e combate à discriminação; Enfrentamento do trabalho infantil e trabalho escravo; e Fortalecimento dos atores tripartites e Diálogo social.
A realização da Conferência no início da gestão em curso, acredita-se ter sido um fator importante para uma propensão das pessoas e instituições em participar e conhecer mais as propostas apresentadas. Além de constantes referências acerca de iniciativas pretéritas similares que não atenderam às expectativas, havia também muito questionamento sobre ações diretas a serem executadas, principalmente por parte de gestores municipais. Superados esses pontos e entendido o propósito do encontro, foi organizado um relatório da atividade a partir das proposições formuladas nos Grupos de Trabalho.
Por ocasião da Conferência, foram assinados dois importantes instrumentos normativos para a condução da elaboração da Agenda. O primeiro foi um Memorando de Entendimentos entre o Governo da Bahia e a Organização Internacional do Trabalho, cujo objeto foi o estabelecimento de uma parceria para cooperação técnica para elaboração da Agenda.
O segundo foi a criação de um Grupo de Trabalho Executivo (GTE), por meio de decreto do governador, com a finalidade de elaborar a Agenda e organizar o processo para sua construção. Esse grupo foi formado inicialmente por sete secretarias de estado, o Conselho Estadual Tripartite e Paritário de Trabalho e Renda , além da Delegacia Regional do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho, como convidados.
Até o lançamento da Agenda, em dezembro de 2007, o GTE se reuniu oito vezes (além das reuniões setoriais). A participação do grupo foi fundamental para a execução do projeto. Inicialmente, o nível de envolvimento foi diferenciado, tanto pela proximidade e maior relacionamento das atividades das instituições, como também por alteração entre os representantes indicados para participar do grupo. De forma geral, a indicação de vários representantes comprometidos e com acúmulo de experiência e conhecimento nos temas da Agenda foi vital para seu desenvolvimento.
Ainda no momento da Conferência, a proposta de criação do GTE foi questionada, principalmente pelos trabalhadores, devido à ausência de representantes dos trabalhadores e empregadores em sua composição. Como se tratava de um novo caminho a ser percorrido, a criação de um Grupo de Trabalho, expediente habitual na administração pública, tinha como objetivo precípuo a definição de linhas gerais de atuação, inclusive de meios para ampliar o debate e a discussão sobre o tema.
No decorrer do projeto, foram criados espaços para aumentar a participação e o diálogo social, bem como foi deliberada a ampliação do GTE, indo ao encontro das demandas apresentadas.

Desenvolvendo um modelo

Nas primeiras reuniões do GTE foram encaminhadas demandas relativas à coleta, em cada instituição, de informações sobre as ações existentes para promoção de trabalho decente. O resultado desse inventário deu origem ao Guia do Trabalho Decente .
Socializado o Relatório final da Conferência, foi organizado, como uma das atividades iniciais do grupo, um Seminário com todos os membros do GTE, a fim de que pudessem ser apreciados panoramas gerais nas áreas indicadas no Relatório e nas Agendas Nacional e Hemisférica do Trabalho Decente.
A organização de apresentações de cada área de competência das secretarias de estado envolvidas e de outras instituições que integravam o GTE foi fundamental para compartilhar as especificidades de cada setor, identificar os principais problemas, as potencialidades e as lacunas, com a participação de profissionais que trabalham com as questões no estado. Assim, tornou-se possível identificar os eixos prioritários de ação.
Desse modo, foram definidas as prioridades da Agenda, em sete eixos temáticos: Erradicação do Trabalho Escravo, Erradicação do Trabalho Infantil, Juventude, Serviço Público, Segurança e Saúde do Trabalhador, Promoção da Igualdade e Trabalho Doméstico.
Posteriormente, foi incluído o eixo “Biocombustíveis”. O Comitê Executivo do Programa Estadual de Biodiesel, coordenado pela Secretaria da Ciência, Tecnologia e Inovação e pela Secretaria do Planejamento, apresentou interesse em incluir esta temática na Agenda, tendo como aspecto objetivo a incorporação da concepção do trabalho decente nas ações estaduais nesse campo.
Para mobilização e formulação das propostas foi definida a estratégia de formação de grupos de discussão, compostos por representantes de instituições e profissionais direcionados a cada eixo. Esses grupos foram chamados de Câmaras Temáticas.
Cada eixo temático passou a contar com articuladores, cuja atribuição seria a organização e convocação das Câmaras temáticas. Às Câmaras caberia a definição de uma linha prioritária de atuação para composição da Agenda.
Havia, desde o início, uma preocupação em não duplicar instâncias de debate. Tomando-se como exemplo o trabalho infantil, verifica-se nessa área uma série de fóruns, com finalidades por vezes diferenciadas, mas que se prestavam à discussão dos principais problemas na área. Dentre esses, pode-se citar a COMPETI, COMETI, CMDCA, FETIPA , entre outros.
Muitas vezes, os atores têm que se esforçar para participar de vários desses fóruns. A intenção declarada era de cooperar com eles, não criar uma outra instância. Optou-se então por constituir as Câmaras como espaço aberto (sem nomeação formal) e que dialogaria com os outros grupos existentes.
O debate sobre as propostas da Agenda foi realizado também em reuniões do Fórum de Meio Ambiente do Trabalho (FORUMAT), Fórum Estadual de Combate ao Tráfico de Pessoas, entre outros. Esse último pode ser considerado o melhor exemplo dessa convergência. O Fórum de Tráfico de Pessoas, organizado pela Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, congrega três grupos de trabalho: exploração sexual de mulheres, exploração sexual de crianças e adolescentes e trabalho escravo. Esse último grupo de trabalho, no Fórum, foi constituído como Câmara Temática do Trabalho Escravo, consolidando todas as discussões sobre o tema. Na ocasião do lançamento da Agenda, em dezembro de 2007, eles já contavam, além dos resultados esperados e linhas de ação, com um detalhamento avançado, um anteprojeto para um plano de erradicação do trabalho escravo no estado.
As reuniões das Câmaras foram bastante proveitosas. Houve uma variedade de situações. Na primeira reunião da Câmara da Juventude, participaram mais de 60 entidades, com grande participação da sociedade civil organizada, perfil que se consolidou nesse eixo. Esta temática suscitou grande polêmica no grupo de trabalho, avaliado como resultado tanto da ausência de espaços mais amplos para a questão da juventude (inexistia um conselho ou processo de conferência para a juventude, o que foi iniciado ao final do ano de 2007).
Problemas relacionados à educação, segurança pública e discriminação foram abordados. Há que se ressaltar a multideterminação do problema do desemprego juvenil, o que justifica a multiplicidade de demandas apresentadas. Esse grupo assumiu estratégia diferenciada também, pois dele emanou a necessidade de realização de uma oficina, em que as instâncias governamentais e as entidades da sociedade civil presentes pudessem apresentar suas ações, socializar informações e assim pensarem em propostas de forma mais articulada.
Em novembro, foi realizada uma convocação geral das Câmaras, com o objetivo de definir os termos finais das propostas de cada eixo, alinhados com uma condução metodológica focada em Resultados Esperados e Linhas de Ação, em consonância com a Agenda Nacional. Esse encontro foi fundamental para formação do texto da Agenda.

Uma proposta e novos espaços de debate

O debate sobre o Trabalho Decente, estimulado pela OIT e intensificado após o lançamento da Agenda Nacional, colaborou para a abertura de novos espaços para o aprofundamento do tema e para discussão da Agenda Bahia do Trabalho Decente.
No decorrer do processo, o projeto Agenda Bahia foi apresentado em evento organizado pelo DIEESE , em São Paulo, intitulado Agenda sindical do trabalho decente. Na ocasião, foram discutidas também a experiência nacional e o projeto de trabalho decente coordenado pela Prefeitura de Santo André (SP).
Como encaminhamento desse seminário, foi realizado encontro em Salvador, com o objetivo de articular as lideranças sindicais para construção de uma agenda dos trabalhadores pelo trabalho decente e organizar a forma de participação na Agenda Bahia.
A iniciativa baiana também foi objeto de discussão em encontro organizado pela OIT, no Chile, com a participação de representação de vários países latino-americanos.
A participação em encontros acadêmicos ampliou a esfera de interlocução da proposta e proporcionou a sinalização de futuras parcerias.

Um texto elaborado por várias mãos

A Agenda Bahia do Trabalho Decente é composta por três conjuntos de eixos: o central, os temáticos e um setorial. O eixo central envolve a gestão da Agenda, a mobilização e articulação, a organização de uma base de conhecimentos e de iniciativas de sensibilização, fortalecimento institucional e acompanhamento das ações.
Os eixos temáticos representam as áreas prioritárias de ação. Para formulação destas propostas em cada um deles, foram realizados seminários, consultas, oficinas e instituídas Câmaras Temáticas, conforme relatado.
O eixo setorial refere-se ao campo dos biocombustíveis, cujas propostas foram apresentadas pela Coordenação do Programa Estadual de Biocombustíveis, com base na discussão acumulada sobre o tema no Estado.

Institucionalizando a Agenda

Além dos documentos já citados, a proposta do Trabalho Decente passou a ser aos poucos incorporada em instrumentos legais e normativos no estado.

Boas Práticas de Trabalho

Ainda nas discussões preliminares de preparação da Conferência, a coordenação dos trabalhos verificou que a Secretaria de Estado da Administração já havia incorporado no planejamento da instituição a promoção de um ambiente de trabalho decente e aprendizagem organizacional. Dessa iniciativa, resultou posteriormente o Prêmio de Boas Práticas de Trabalho no Serviço Público Estadual, instituído pela Lei 10.848, e que tem como orientador o conceito de trabalho decente.

Planejamento participativo

Outra iniciativa importante foi a incorporação do conceito de Trabalho Decente ao planejamento governamental em nível mais amplo. O Governo da Bahia adotou, de forma inédita no estado, um processo participativo de construção do Plano Plurianual. Foram realizadas 17 plenárias no estado, com intensa participação popular.
A metodologia das plenárias envolveu a organização de grupos temáticos para formulação de propostas. Desde esse momento, o trabalho decente foi pautado como um grupo temático, dentro da diretriz estratégica “Promover o desenvolvimento com inclusão social” .
Em decorrência dessa discussão de base sobre o tema, o trabalho decente configurou-se como um programa específico do PPA, que incorpora ações voltadas ao sistema público de emprego, trabalho e renda e a própria construção da Agenda do Trabalho Decente. No modelo do PPA , outras ações do estado com o objetivo direto de promoção de trabalho decente podem ser relacionadas a esse programa como ações transversais, permitindo melhor acompanhamento geral das atividades governamentais com esse propósito.

Regimento da Setre

O regimento da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, reformulado em 2007, apresenta o trabalho decente como uma de suas finalidades, corroborando para o propósito de estabelecer esse conceito como articular das políticas para o trabalho no Estado.

Art. 2º - À Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte – SETRE compete:
I - formular, coordenar e executar políticas públicas de promoção do trabalhador, tais como, formação profissional, orientação, visando a organização dos trabalhadores, identificação de oportunidade de trabalho e emprego, inserção de trabalhadores no mercado de trabalho e melhoria das relações de trabalho, inclusive em articulação com entidades de direito público interno ou externo de todas as esferas de governo e entidades de direito privado nacionais ou estrangeiras;
II - propiciar condições e iniciativas que estimulem a promoção do trabalho decente para todos. (Decreto nº 10.454 de13 de Setembro de 2007)
Implementar a Agenda
Além de operacionalizar essas diretrizes, outros desafios estão postos, como a ampliação das ações existentes, a inclusão de outros atores, a difusão do projeto, seu monitoramento e acompanhamento.
A fase atual é a implementação da Agenda, por meio da elaboração de Planos de Ação por eixo temático. Está em curso uma coleta de informações sobre as ações desenvolvidas pelo Governo da Bahia e demais entidades participantes do projeto. O passo seguinte será a análise dos dados, a fim de identificar sobreposições, lacunas das ações, em comparação com as demandas emanadas na Agenda, além de se avaliar as possibilidades de integração e parceria entre as instituições. Outro objetivo é influenciar a condução das políticas públicas e ações privadas, em diversas áreas, de forma a contribuírem efetivamente para promoção do trabalho decente.
O conjunto dos Planos de Ação, por eixo temático, formará o Programa Bahia do Trabalho Decente, que será monitorado por um Comitê tripartite (governo, trabalhadores, empregadores), ampliado em relação ao Grupo de Trabalho inicialmente constituído. Espera-se que a discussão do trabalho decente, quer pela indução da Agenda e de suas futuras atualizações, quer pelo debate e acompanhamento dos planos de ação, seja incorporado de forma transversal nos programas e projetos, e, mais do que isso, na motivação de cada uma dessas iniciativas.




3. Considerações Finais

O desenvolvimento da Agenda Bahia do Trabalho Decente exige uma ação sistemática em diversos âmbitos, e não apenas das políticas de trabalho stricto sensu. Por isso mesmo, um fator determinante para o seu êxito até a atual etapa foi ter sido encarada como uma meta de governo e incorporada à sua visão estratégica.
A possibilidade de obtenção de avanços significativos de agendas locais é uma questão, contudo, que deve ser ponderada com relação às perspectivas de desdobramento e extensão dos efeitos dessa política. Saudada pela OIT como primeira Agenda sub-nacional, e considerada prática a ser difundida, esta condição encerra limitações decorrentes do fato de ser a normatização e a fiscalização do trabalho uma competência exclusiva da União. Por este raciocínio, fica estabelecida uma relação de subordinação das iniciativas regionais/locais face às diretrizes nacionais neste campo.
Vale dizer que, apesar da Agenda Brasil não ter evoluído substancialmente enquanto arranjo institucional específico, as políticas brasileiras de erradicação do trabalho escravo e do trabalho infantil têm obtido reconhecimento internacional, e repercutem positivamente para as ações que são empreendidas pela esfera estadual.
Simultaneamente, os êxitos da política macroeconômica, que permitiu a retomada do emprego e a melhoria da renda, também são decisivos para o desenvolvimento de ações de trabalho decente nas unidades da federação.
Assim, se é fato que a construção de uma Agenda Estadual guarda um grau de dependência em relação a políticas conduzidas em âmbito federal, a evolução de estratégias regionais pode se beneficiar fortemente de políticas nacionais alinhadas à lógica da valorização do trabalho. Observa-se haver espaço propício à implementação de ações que favoreçam ao nível dos estados o fortalecimento da perspectiva do trabalho decente.
A experiência baiana indica, ainda, que as políticas de trabalho, emprego e renda podem ser desenvolvidas transversalmente na estrutura burocrática do estado, articulando-se com políticas de gênero e etnia, de saúde, de justiça e direitos humanos, de desenvolvimento social, de valorização do servidor, entre outras. Isto não quer dizer que o aprimoramento da Agenda não requeira avanços na própria política específica do trabalho, contribuindo, por exemplo, para a internalização do trabalho decente às ações tradicionais de intermediação de mão de obra e de qualificação profissional, tendo em vista que são ferramentas importantes para se buscar a promoção da igualdade no trabalho e a inclusão produtiva.
Cabe destacar alguns desafios. Um deles refere-se à transversalidade do tema nas políticas econômicas. Incorporar cláusulas sociais nas ações relacionadas à concessão de crédito, compras governamentais e incentivos fiscais é fundamental e factível. Depende de vontade política e sua inclusão traduz-se em elemento de transversalidade entre o desenvolvimento econômico e o social. Melhor ainda, traduz-se em elemento de intercessão essencial para o alcance de novos patamares em termos de promoção da igualdade e justiça social. O caso do BNDES, anteriormetne citado, é um exemplo de ações desse tipo.
Outro desafio significativo é a análise de impacto da Agenda do trabalho decente, em dois níveis: como política específica e como conjunto de ações finalísticas afins, como saúde e segurança, qualificação, combate ao trabalho escravo e infantil, por exemplo. Por conseguinte, a definição e o acompanhamento de indicadores de trabalho decente serão decisivos para avaliar os resultados obtidos e para promover o redirecionamento de estratégias que visam a possibilitar que o Trabalho Decente seja realmente vetor de desenvolvimento e governança democrática. Ou seja, a análise dos resultados dessa Agenda não pode se restringir à eficiência e eficácia das ações isoladas, deve remeter sempre aos objetivos mais amplos dessa proposta: o trabalho decente e o desenvolvimento com justica social.
Nesse ponto, o fortalecimento dos atores tripartites, o diálogo e o controle social são essenciais para o desenvolvimento e sustentabilidade de iniciativas análogas, a fim de que estas reflitam os anseios populares, sejam eficientemente geridas e perdurem como políticas de estado, superando a transitorialidade dos governos.


Referências

MTE. Ministério do Trabalho e Emprego. Na Trilha de Salvador : a Inclusão Social pela Via do Trabalho Decente. – Brasília : MTE, Assessoria Internacional, 2004.

OIT. Organização Internacional do Trabalho. Declaração dos Direitos e Princípios Fundamentais no Trabalho da OIT, 1998.

________. Organização Internacional do Trabalho. Site oficial. Disponível em:. Acesso em 02 Abr 2008.

PENNA FILHO, Pio. Estratégias de desenvolvimento social e combate à pobreza no Brasil. In: OLIVEIRA, Henrique Altemani; LESSA, Antonio Carlos. Relações Internacionais do Brasil: temas e agendas, v. 2. São Paulo: Saraiva, 2006

PME. Pesquisa Mensal de Emprego. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Disponível em:. Acesso em 02 Abr 2008. , 2008

SACHS, Ignacy. Inclusão social pelo trabalho decente: oportunidades, obstáculos, políticas públicas. Estudos Avançados. N. 18 (51), 2004. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n51/a02v1851.pdf>. Acesso em 02 Abr, 2008.

THENÓRIO, Iberê. BNDES reforça compromisso de vetar empresas da “lista suja”. Disponível em: http://www.reporterbrasil.com.br/pacto/noticias/view/30. Acesso em 21/02/2008.

01 março, 2008

AGENDA BAHIA DO TRABALHO DECENTE



Trabalho Decente é uma ocupação produtiva e adequadamente remunerada, exercida em condições de liberdade, eqüidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna.
Este conceito foi proposto inicialmente pela Organização Internacional do Trabalho e vem sendo adotado pelos governos de diversos países. No ano passado, em adesão a esse objetivo global assumido pelo Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego consolidou importantes diretrizes na Agenda Nacional de Trabalho Decente.
Uma agenda de Trabalho Decente deve estar pautada em quatro pilares: o respeito aos princípios e direitos fundamentais no trabalho, a geração de ocupações de qualidade, a ampliação da proteção social e a promoção do diálogo social.
A implementação de compromissos em torno do Trabalho Decente vai ao encontro da decisão política de ter o trabalho como centro do processo de desenvolvimento, como via de inclusão social, em um projeto que tem as pessoas e a melhoria da sua condição de vida como questões basilares.
Para estabelecermos estratégias de desenvolvimento com inclusão social ─ fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, o crescimento econômico é condição necessária, mas não suficiente. Sua efetividade nesse projeto está condicionada a uma atenção especial para setores que gerem mais trabalho e ao embasamento em mecanismos que permitam melhor distribuição das riquezas e melhor qualidade das ocupações ofertadas. Setores produtivos e atividades que concentram a população mais vulnerável, como a agricultura e o trabalho doméstico, também devem ser espaços prioritários de ação.
A promoção de trabalho decente envolve ações de geração de trabalho e renda, segurança e saúde no trabalho, combate à discriminação, qualificação profissional, melhores condições de trabalho; enfim, a busca por oportunidades de trabalho mais dignas, com liberdade e abertura à participação e ao diálogo social. Destaca-se igualmente o objetivo de erradicação de formas degradantes de trabalho, como o trabalho infantil, o trabalho escravo ou forçado e outras práticas espúrias.
As instituições brasileiras têm demonstrado significativo avanço histórico no campo da valorização do trabalho, o que, contudo, não representa solução acabada para esta questão, mas sim disposição política e mobilização social para enfrentamento dos problemas relativos a esse tema.
Aderir à convocação global para o debate do Trabalho Decente é reconhecer o Trabalho como cerne do desenvolvimento e de inclusão social, é reconhecer o valor do Trabalho como aspecto central na nossa sociedade, é apresentar disposição para dirigir esforços a fim de consolidar as conquistas e mobilizar a sociedade para a busca de alternativas para esses desafios. A Bahia inova nesse campo ao lançar a primeira Agenda do Trabalho Decente em nível subnacional no mundo, segundo constatação da OIT, que tem prestado apoio técnico a esse processo. Construída de forma participativa, em diálogo tripartite ampliado, envolvendo trabalhadores, empregadores, governo e sociedade civil organizada, a Agenda expressa compromissos prioritários nos seguintes campos: erradicação do trabalho escravo e infantil, segurança e saúde do(a) trabalhador(a), juventude, serviço público, promoção da igualdade, trabalho doméstico e biocombustíveis.
Além da operacionalização dessas diretrizes, outros desafios estão postos, como a interiorização da proposta, a ampliação das ações existentes, a inclusão de outros atores, a difusão do projeto, seu monitoramento e acompanhamento. No recém lançado Portal do Trabalho Decente ( http://www.setre.ba.gov.br/ ), pode-se ter acesso à Agenda, a um catálogo com ações voltadas à promoção de melhores condições de trabalho, entre outras informações.
Trata-se de um projeto de longo prazo, com e para toda a sociedade. A participação e o compromisso de todos é fundamental para o avanço desses objetivos. Afinal, trabalho decente é direito da gente.

Publicado em A Tarde de 2/1/2008, p. 3

25 agosto, 2007

Sistema nacional de emprego na Bahia: funcionamento, resultados e limitações


Dissertação de Mestrado apresentada ao Núcleo de Pós-graduação em Administração da Escola de Administração da UFBA, em 2007
Autor(es): Barros, Cleyton Miranda
Orientador: Vasconcelos Júnior, Nilton

Resumo: 
Esta dissertação analisa o desempenho do Sistema Nacional de Emprego – SINE
 no Estado da Bahia, com enfoque na atividade de intermediação de mão-de-obra,
para o período de 2001 a 2005. A partir de uma pesquisa documental, analisou-se os resultados
apresentados por esta política pública de emprego, tendo como referência a dinâmica do mercado
formal de trabalho no estado. Para tanto, considerou-se diferentes dimensões da política de
intermediação, a exemplo do perfil dos trabalhadores atendidos, bem como da relação entre esses
e o universo de trabalhadores admitidos e desligados no período, segundo dados do Cadastro Geral
de Empregados e Desempregados – CAGED. Como resultado, constatamos uma correlação positiva
entre o desempenho do mercado formal de trabalho e o desempenho do SINE, através da relação
entre número dos trabalhadores colocados no mercado formal de trabalho através do serviço de
intermediação de mão-de-obra em relação ao número total de admissões. Além disso, verificamos
ainda que o desempenho do serviço público de intermediação de mão-de-obra é bastante heterogêneo,
com expressivas variações de acordo com o perfil dos trabalhadores.




Íntegra da dissertação aqui

 

02 fevereiro, 2007

Emprego estagnado no setor automotivo nacional

Nilton Vasconcelos
Publicado em Conjuntura & Planejamento, n. 140



Um fenômeno importante, já evidenciado em pesquisas
anteriores, vem se confirmando no setor automotivo
brasileiro. Na contramão da produção ascendente,
a estagnação do emprego é uma característica daquele
que é um dos segmentos tradicionalmente associados
à geração de postos de trabalho em larga escala.
Empregos sim, mas não como antes. Estabelecer
uma correlação direta entre elevação da produção e
ampliação do nível de emprego setorial está cada vez
mais difícil, e é uma situação ainda menos provável de
encontrar nas regiões produtoras mais antigas.
Na divulgação das estatísticas relativas à indústria
automotiva brasileira no ano de 2005, destacou-se
sobretudo a produção recorde de 2,44 milhões de veículos
montados no ano – o que inclui os automóveis,
comerciais leves, caminhões e ônibus. Pouca atenção,
entretanto, foi dedicada à análise do comportamento
do emprego no setor. Essa ênfase no número
de unidades produzidas não deixa de ser compreensível
visto que o desempenho da indústria automotiva
superou em dez por cento a produção também
recorde do ano anterior. São resultados indiscutivelmente
expressivos, em especial se comparados com
os índices de dez anos atrás. Verificou-se, em 2005,
um crescimento da ordem de cinqüenta por cento em
relação à produção observada em 1995, conforme
podemos observar na Tabela 1.
Aliás, o ano de 1995 é um marco na política pública para
o setor automotivo no país. Em junho daquele ano, o
governo Fernando Henrique Cardoso encerrou a experiência
da Câmara Setorial Automotiva, uma instância
de formulação de política setorial que envolvia uma representação
tripartite: o governo federal, empresários
e trabalhadores. Em seu lugar, foi editada uma série de
Medidas Provisórias que estabeleceram, de forma supostamente
unilateral, o Regime Automotivo Brasileiro.
Análises posteriores, inclusive do Tribunal de Contas da
União, mostraram que a mudança introduzida beneficiou
sobremaneira as montadoras em detrimento da indústria
nacional de autopeças, e deflagrou uma verdadeira
corrida fiscal, na qual os governos federal, estaduais e
municipais passaram a conceder cada vez mais benefícios
e vantagens para atrair investimentos automotivos
(VASCONCELOS, 2002).
O crescimento da produção, no entanto, não se deu
de forma linear, ao contrário, oscilou muito, tendo
chegado a dois milhões de unidades, em 1997, caído
para 1,3 milhão de veículos, em 1999, e retomado
uma curva ascendente a partir de 2002.
Entretanto, um outro indicador menos divulgado apresentou
um comportamento diferente ao longo da última
década. Trata-se do desempenho do emprego nas montadoras
de veículos, sendo observado nos anos recentes
uma relativa estagnação do contingente ocupado.

Quando o indicador é pessoal empregado, constatase
nos últimos onze anos uma diminuição de dez mil
vagas nas montadoras, caindo de 104 mil para 94 mil,
em 2005, ainda que neste ano tenha sido anotado um
crescimento de 6% no número de postos de trabalho
nos fabricantes de autoveículos. Desde o final da década
passada, no entanto, prevalece um quadro de
estagnação do nível de contratação, mantendo-se na
faixa dos 85-90 mil contratos de trabalho nas montadoras,
como se pode ver na tabela acima.
Uma análise mais extensa da série histórica produzida
pela ANFAVEA – Associação Nacional dos Fabricantes
de Veículos Automotores do Brasil indica que o
ano de 1980 marcou o recorde do emprego com 133
mil postos de trabalho nas montadoras, para um total
de 1,165 milhão de veículos produzidos naquele mesmo
ano. Assim, a relação veículos produzidos/empregados
nas montadoras/ano variou de 8,7 veículos por
empregado, em 1980, para aproximadamente 25,9
veículos por empregado, em 2005. Há, portanto, um
crescimento significativo da produtividade, levando
em conta esse indicador.
A essa redução do emprego ao longo do período e
à relativa estagnação observada nos últimos anos,
correspondeu um crescimento da sub-contratação,
da terceirização, do emprego por tempo parcial e de
outras modalidades de precarização do emprego.
Correspondeu, ainda, à utilização de métodos de gestão
que privilegiaram a redução de custos – inclusive
dos custos do trabalho – e modificaram a estrutura da
produção automotiva, transferindo grandes parcelas
da montagem para empresas integrantes de outros
níveis da cadeia produtiva.
Segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho,
em relatório publicado em 2005 sobre as tendências
da indústria automotiva, os fornecedores de
componentes de automóveis já respondem por dois
terços do valor adicionado de um veículo, e, em futuro
próximo, esta relação pode chegar a 75%, no caso de
alguns fabricantes.
Essa transferência de fases da produção das montadoras
para os fornecedores poderia significar que o
emprego também teria sido deslocado para os fabricantes
de autopeças, o que, entretanto, não ocorreu.
Segundo dados do Sindipeças – Sindicato Nacional
da Indústria de Componentes para Veículos Automotores,
que reúne as empresas produtoras de autopeças,
o setor empregava em 1994 um total de 236,6
mil trabalhadores, tendo este número recuado para
187 mil, em 2004, com uma estimativa de chegar a
um total aproximado de 197 mil empregados no mês
de novembro de 2005. Em síntese, verifica-se um
quadro semelhante àquele observado nas montadoras
de veículos.
Com relação ao faturamento na indústria de autopeças,
a tabela abaixo apresenta um caminho inverso
daquele percorrido pelos índices de emprego. Embora
com oscilações, há um crescimento do faturamento
em dólar, de forma que o indicador faturamento por
trabalhador/ano apresenta elevação substancial. Trata-
se, portanto, de uma variação equivalente à que foi
observada entre o número de unidades produzidas
por trabalhador nas montadoras.


Outro fator relevante, e que mostra o quanto é significativa
a variação do emprego nos centros tradicionais
da produção automotiva no Brasil, é o investimento realizado
em novas unidades produtivas no país a partir
do final dos anos noventa. Foram mais de dez novas
fábricas construídas no país, entre as quais estão
grandes plantas industriais no Rio Grande do Sul, Paraná,
Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais, todas elas
situadas fora das regiões historicamente produtoras
de veículos. Estima-se que apenas a Ford, em Camaçari,
empregue em torno de 4 mil trabalhadores, sem
contar as demais empresas integrantes do condomínio
industrial comandado pela empresa estadunidense.
As novas unidades produtivas da General Motors,
Renault, Peugeot e outras, também contribuíram para
o surgimento de milhares de postos de trabalho. Portanto,
para se obter os números finais que indicam
a relativa estagnação do contingente empregado no
setor nos últimos anos, deduz-se que a redução do
emprego foi ainda mais dramática nos centros produtores
tradicionais de autoveículos, como São Paulo.
No panorama mundial, a indústria automotiva tem
sido marcada pelo insistente noticiário da imprensa
especializada sobre uma iminente falência das duas
gigantes norte-americanas – a Ford e a General Motors,
que reúnem uma dívida de mais de 450 bilhões
de dólares e têm valor de mercado estimado em torno
de 35 bilhões de dólares. Os sistemáticos ajustes de
custos, com a demissão de dezenas de milhares de
empregados, atinge também a outrora terceira maior
empresa automobilística dos EUA.
Sejam quais forem as dimensões da crise das gigantes
do setor, o impacto sobre o Brasil se fará sentir, ou
seja, não há motivo para se crer que a reestruturação
tenha chegado ao fim e que suas implicações sobre
o emprego deixem de ser detectadas. Ao contrário, o
estímulo à incessante diminuição de custos de produção
contribui para a restrição desta esfera em benefício
da financeirização da economia. Nesse contexto,
o emprego tende a reduzir em termos proporcionais,
não apenas na indústria, mas também nos demais setores,
à medida que assimilam a lógica predominante
na economia.


Referências
ANFAVEA. Anuário estatístico da indústria automobilística
brasileira – 2005. Disponível em: com.br>. Acesso em: 30 de janeiro de 2006>.
SINDIPEÇAS. Informativo, dezembro 2005. Disponível
em: asp>. Acesso em: 30 de janeiro de 2006.
______. ABIPEÇAS. Desempenho do setor de autopeças
2005. Disponível em: br/documentos/desempenho2005.pdf/>. Acesso em:
27 de janeiro de 2006.
TEIXEIRA, F. L. C.; VASCONCELOS, N. Reestruturação
produtiva, organização do trabalho e emprego na
cadeia automobilística brasileira. Nexos Econômicos,
Salvador-Ba, v. II, n. 1, p. 115-128, 2000.
VASCONCELOS, N. A política pública e o seu processo
de formulação: o caso da indústria automotiva
brasileira na década de 90. Bahia Análise & Dados.
Salvador, v. 12, n. 2, p. 125-137, set. 2002.

* Professor do CEFET-BA, Doutor em Administração Pública.




O texto completo está no site da SEI - Superintendência de EStudos Econômicos e Sociais da Bahia

Economia Solidária e Metodologias de Incubação



Débora Nunes UNIFACS/UNEB
Nilton Vasconcelos CEFET-BA


Introdução

A pesquisa e a extensão universitárias relacionadas ao desenvolvimento da gestão de empreendimentos solidários tem se ampliado em todo o país, especialmente a partir de 2003, com a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária SENAES/MTE, elevando a um novo patamar os desafios no apoio e fomento às cooperativas populares, aos grupos de produtores de bens e serviços, associações e entidades que lhes prestam assessoria. Medidas adotadas nos três níveis de governo permitiram o fortalecimento das atividades de geração de ocupação e renda numa perspectiva associativista, participativa, auto-gestionária e de harmonização entre o consumo e a produção de bens e serviços.

Em decorrência deste crescimento, importantes exigências têm sido apresentadas às instituições de apoio, notadamente as universidades, no sentido de aprimorar as metodologias de incubação. Esta temática tem sido objeto de um debate permanente no âmbito das organizações financiadas pelo PRONINC – Programa de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas, que reconhece a necessidade de reavaliar os procedimentos de intervenção direta no suporte ao associativismo econômico para aperfeiçoar a assessoria prestada.

O universo da Economia Solidária (ES) é bastante amplo. O sentido geral destas iniciativas é estabelecer relações econômicas com base na solidariedade, em métodos participativos de deliberação e gestão, e em princípios éticos de consumo, incluindo a defesa do meio ambiente (NUNES, 2002). São atividades econômicas intensivas em trabalho e que, muitas vezes, não dispõem dos recursos iniciais necessários à aquisição de equipamentos, insumos ou ao custeio. Para reforçar sua autonomia e desenvolver-se economicamente, buscam organizar-se em redes, de produção e consumo, mas também políticas, visando obter apoio do Estado e maior inserção na sociedade.

Este texto pretende descrever em grandes linhas o processo de incubação de empreendimentos populares de Economia Solidária que vem sendo realizado em algumas Universidades, assim como apontar alguns dos desafios deste processo, particularmente a discussão sobre a sustentabilidade associativa dos empreendimentos. Para auxiliar estas organizações é indispensável que se desenvolva uma melhor compreensão sobre elas, inclusive quanto às soluções encontradas pelos próprios empreendimentos no enfrentamento da realidade que integram, observando a lógica específica do seu funcionamento e identificando os mecanismos que lhes têm permitido resistir em meio a um ambiente competitivo altamente desfavorável à sua sobrevivência.


O processo de incubação de empreendimentos populares de Economia Solidária

Para melhor incentivar o surgimento de organizações econômicas populares e contribuir para seu desenvolvimento surgiram centenas de iniciativas de incubação no Brasil, desde os anos 70, destacando-se o caso pioneiro da Cáritas Brasileira (BERTUCCI e SILVA, 2003). No ambiente universitário, o fomento aos empreendimentos solidários, particularmente às Cooperativas Populares, surge com maior evidência no Brasil a partir dos anos 90. Assim, o conceito é construído a partir da prática e a prática é realimentada pelas análises teóricas (GUIMARÃES, 2002). A experiência das incubadoras tecnológicas de cooperativas populares tem início nos anos 1995-1996, e deu margem à estruturação da primeira Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares - ITCP, em 1995, na COPPE/UFRJ, centro de pós-graduação em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O reconhecimento deste trabalho estimulou o lançamento do PRONINC, em 1998, possibilitando o surgimento de outras cinco incubadoras. Em 1999, estrutura-se a Rede Nacional de Incubadoras atuando com a perspectiva de resgatar o papel da universidade como agente transformador da sociedade na concepção de extensão universitária (SOUZA SANTOS, 2002; SINGER, 2002).
Em fins de 2003, o Ministério do Trabalho, através da Secretaria Nacional de Economia Solidária, em parceria com a FINEP/MCT, Fundação Banco do Brasil, entre outras, relança o PRONINC, resultando no apoio financeiro à implantação ou manutenção de 35 projetos de incubação em diversos centros universitários. A partir deste universo pode-se ter uma aproximação de como se dá os processos de incubação no Brasil, salientando-se, entretanto, que, se as variantes são grandes no universo da incubação feita pelas universidades, maiores ainda elas se apresentam quando examinamos outros tipos de incubadores (ONGs, igrejas, poder público, etc).

A particularidade da incubação de empreendimentos solidários em relação a outras organizações empresariais, mesmo as de pequeno porte, consiste no perfil dos integrantes dos grupos, que reúnem, em geral, apresentam características que, face aos paradigmas de mercado, os desqualificariam para levarem adiante um “negócio”. São, em geral, pessoas pobres, sem os recursos indispensáveis para investimentos, sem experiência de gestão, com baixa formação escolar, e dificuldades inerentes à condição social e econômica em que vivem.

Assim, os trabalhos de incubação buscam ultrapassar as barreiras da linguagem escrita e falada, da formação para o associativismo e o cooperativismo, do processo decisório em grupo, até alcançar os temas vinculados ao negócio propriamente dito - como obter os recursos para investir, o que produzir, para quem vender, por quanto comercializar, como distribuir os ganhos, etc. Para tanto é indispensável encontrar os valores inerentes ao grupo, os aspectos positivos que caracterizam sua força, sua capacidade de reagir às circunstâncias hostis.

Como o processo de incubação prevê um acompanhamento aproximado entre os técnicos envolvidos na incubação e os membros dos empreendimentos, e destes entre si, é importante tentar empreender uma abordagem antropológica do processo de incubação, enquanto processo grupal. Em primeiro lugar, entender em profundidade os efeitos que a vivência da pobreza acarreta às habilidades necessárias para empreender de forma solidária, tanto em termos positivos quanto negativos. Numa segunda dimensão, atentar para as particularidades da relação entre incubadores e incubados, marcada por diferenças sociais, econômicas e culturais importantes.
Por outro lado, o apoio a empreendimentos de Economia Solidária requer o aprofundamento do conhecimento sobre as peculiaridades da sua gestão. Neste contexto é que se objetiva ampliar a compreensão sobre o fenômeno do cooperativismo popular, em especial sobre o seu processo de incubação. Parte-se do pressuposto, contudo, que se deve apreender com os próprios empreendedores, reconhecendo a existência de um saber específico que precisa ser levado em conta, diferentemente de uma perspectiva escolástica, de transferência de conhecimento desde a Universidade para aqueles que não detém conhecimento algum. Ao contrário, considera-se que os conhecimentos reproduzidos na academia para os empreendimentos econômicos tradicionais não se aplicam automaticamente para os integrantes das cooperativas populares e que é preciso desenvolver saberes e metodologias diferenciadas.

Metodologias de incubação nas Universidades

Uma análise comparativa das metodologias de incubação (BARRETO, 2004) desenvolvidas por diversas incubadoras tecnológicas universitárias, num total de onze incubadoras de cooperativas populares (UFPA, UFC, UFRN, UFRPE, UNEB, UFJF, UFRJ, UNICAMP, USP, UFSCAR e UFPR) permitiu estabelecer três grandes etapas, ainda que exista uma tênue linha divisória entre cada uma destas fases, a saber: 1) a pré-incubação, 2) a incubação propriamente dita e 3) a desincubação. As atividades desenvolvidas em cada uma destas etapas foram sistematizadas a partir da análise de documentos disponibilizados pelas incubadoras, não correspondendo, entretanto, a uma visão homogênea. Observa-se que as ITCPs adotam um número variável de práticas ou ações nas diversas etapas. Esta diferença do nível de amadurecimento, da infra-estrutura disponível pela própria incubadora, ou da interpretação do conteúdo das atividades descritas.

O quadro resultante do esforço de sistematização de metodologias, ainda que apresente insuficiências, revela um tratamento de per si aos empreendimentos, um de cada vez, ou um projeto de incubação elaborado a partir de demandas específicas. Assim, a elaboração de um plano de negócio, da análise de viabilidade econômica, da prospecção de atividades econômicas ou de capacitação dos cooperados, decorre das necessidades de cada grupo.

Embora os passos identificados no levantamento sejam largamente utilizados, e as três etapas de incubação sejam uma referência em quase todos os processos, é necessário um detalhamento maior do que efetivamente é feito no processo de incubação, para não simplificarmos demais e discutirmos apenas nos seus aspectos técnicos e gerenciais. Definidos os passos gerais que normalmente são dados nos processos de incubação universitária – mas também na maior parte das instituições deste tipo de outras origens - é importante observar quais são seus maiores desafios, tanto do ponto de vista da sustentabilidade econômica, quanto associativa.

Os desafios dos empreendimentos solidários em termos de sustentabilidade econômica

Esta abordagem, de modo geral, é a mais discutida quando se fala de incubação de empreendimentos de Economia Solidária. Talvez pela abundância de literatura e pela interveniência de instituições que têm ampla experiência neste campo no caso das pequenas empresas (Ex: SEBRAE), a abordagem da gestão econômica é a mais corrente. É preciso destacar, dentre outros, o esforço da CAPINA, Ong com sede no Rio de Janeiro que vem desenvolvendo há muitos anos uma abordagem de assessoria que enfrenta os desafios econômicos e associativos ao mesmo tempo (CAPINA, 1998). Abordaremos brevemente este tema para passarmos em seguida para um desenvolvimento mais longo das questões da incubação enquanto processo de troca cultural e construção de valores.
Em termos de sustentabilidade econômica, de um modo geral as cooperativas populares enfrentam as dificuldades inerentes aos pequenos empreendimentos, numa estrutura de economia de mercado absolutamente adversa, aliado aos problemas relativos ao perfil dos empreendedores e à natureza coletiva na iniciativa. Veiga (2002) identifica seis dificuldades que o associativismo econômico enfrenta:

- A idéia do emprego tradicional como horizonte de ocupação a ser atingido pelos empreendedores, tendo como objetivo a segurança do vínculo e as garantias trabalhistas, e adotando o associativismo econômico como último recurso;
- Falta de uma compreensão dos agentes públicos, entidades de apoio e sindicatos quanto à forma de tratar os novos trabalhadores não-qualificados e semi-qualificados integrantes do associativismo econômico;
- Defasagem dos critérios adotados para financiamento destas novas iniciativas, ainda baseadas em garantia patrimonial, lucratividade, cadastro no sistema financeiro - que não são adequados à realidade dos empreendimentos populares;
- Fragmentação das experiências, levando ao desperdício de oportunidades por falta de troca de informações ou ações conjuntas;
- Falta de acompanhamento duradouro das iniciativas por parte dos órgãos de apoio e financiamento;
- Falta de uma política pública, especialmente no âmbito municipal, limitando o desenvolvimento do associativismo econômico.

Embora este quadro ainda seja predominante, ele vem se modificando com a ampliação do número de empreendimentos solidários e dos recursos a eles destinados diretamente ou através de organizações de apoio, por agências públicas e privadas. As referências à problemática da sustentabilidade econômica, entretanto, tem apenas a finalidade de compor o quadro mais amplo dos desafios da incubação dos empreendimentos solidários. Não as aprofundaremos aqui. O objetivo principal deste artigo é abordar prioritariamente o que chamamos de sustentabilidade associativa, assunto da próxima seção.

Os desafios dos empreendimentos solidários em termos de sustentabilidade associativa

A incubação, que dificilmente existe por menos de dois anos e significa um trabalho aproximado dos incubadores (diário ou semanal, na maior parte dos casos) com os membros do empreendimento, significa essencialmente uma troca cultural, no sentido de que envolve aprendizado técnico e gerencial, mas também, um relacionamento em que estão em jogo valores, comportamentos, vivência de momentos chaves, num processo que vai da dependência à autonomia. A seguir levantaremos vários pontos que pretendem caracterizar melhor o processo de incubação tal como o vemos, de forma a contribuir para que o debate sobre a incubação avance. Estes temas referem-se ao contexto da pobreza de onde se originam a maior parte dos empreendimentos de ES; aos atores que constroem o desenvolvimento dos empreendimentos solidários e as questões inerentes ao processo de incubação, onde comunidades pobres são apoiadas por profissionais oriundos de segmentos sociais mais privilegiados.

I - Contexto de pobreza de onde se originam a maior parte dos empreendimentos de ES

1) Estigmatização da pobreza e interiorização do estigma

Nunes (2002) inicia a discussão sobre a estigmatização e sua interiorização citando Goffman (1975), que relembra que a palavra estigma tem uma origem grega e se referia, na antiguidade, a um sinal corporal particular, através do qual se queria deixar evidente algo de mal ou de extraordinário sobre o estatuto moral de alguém. O termo será utilizado no sentido atual mais corrente, para se referir à identificação condenatória a priori de uma pessoa ou de um grupo. Dizer que os pobres são estigmatizados na sociedade capitalista não é uma novidade, vários autores já o fizeram antes. Mas se os pobres são estigmatizados, do que são eles acusados? Exatamente de serem pobres, e ainda, de serem potencialmente perigosos. A ideologia difundida por muito tempo em nossa sociedade — apesar da resistência a tal noção ao longo da história e de mudança recente na abordagem do problema — é de que os pobres são pobres por sua própria culpa, por sua ignorância, por sua incapacidade, por sua falta de esforço para progredir ou mesmo pela cor de sua pele.

O problema social da pobreza foi pouco reconhecido por muito tempo no Brasil e até muito recentemente era considerado como de responsabilidade individual. Esta concepção tem a ver com o passado escravista do país, com a inexistência de uma consciência verdadeiramente republicana, com idéias religiosas - que fazem aceitar a pobreza como um sofrimento que será recompensado no além - assim como pelo estado patrimonialista que cria e mantém na dependência da boa vontade dos ricos e poderosos, políticos, administradores, “coronéis”, etc., os desprovidos (FAORO, 1987). A sociedade brasileira só há muito pouco tempo está construindo um serviço público funcional que está fazendo com que a pobreza seja vista como um problema de sociedade a ser tratado estruturalmente pelas instituições responsáveis.

A estigmatização começa pelo visual. Os pobres são segregados pela cor da pele, pela forma de se vestir, pelos sinais corporais que evidenciam seu acesso precário à saúde. Outros sinais podem ser perceptíveis, primeiramente, o lugar onde as pessoas se encontram, pois as cidades são segregadas e os pobres não estão presentes em todos os seus espaços. Em seguida, o modo de falar, as falhas nas concordâncias verbais e nominais e o desconhecimento de tecnologias mais comuns na vida dos incluídos, como a internet, os caixas eletrônicos, etc. Numa outra abordagem, a estigmatização é também uma relação social e por isto se observa de maneira ostensiva o desejo da elite de não se confundir com os pobres e de utilizar vários artifícios para mostrar riqueza e consolidar a diferença de classe.

A interiorização do estigma é uma das reações dos pobres à sua estigmatização. Esta parece ser a atitude mais largamente difundida e que se poderia classificar como uma reação conformista ao modelo social. Mas não é só, há também uma reação mais crítica. Pode-se observar, em outra direção, uma consciência de que se é posto à margem da sociedade, e esta pode desencadear reações de resistência, como a luta política (CHAUI, 1986) – numa perspectiva vista como positiva, ou de revolta, como a marginalidade (ZALUAR, 1985). Todas essas reações, entretanto, não são excludentes, podendo haver nuances no comportamento dos pobres face à estigmatização.

Entre as conseqüências da interiorização do estigma estão a auto-imagem negativa pessoal e do grupo, a identificação com os poderosos, o apoio a líderes fortes, e a inexperiência em ações coletivas (NUNES, 2002). Todas estas conseqüências são extremamente nefastas à construção de um empreendimento econômico popular de fato auto-gestionário e autônomo. A interiorização do estigma da pobreza faz com que as pessoas esperem dos seus líderes que eles sejam diferentes deles próprios, mais próximas ao modelo “bem sucedido” da sociedade. Esta também pode ser a atitude face aos incubadores, que algumas vezes são instados a tomar atitudes de direção no empreendimento, ao invés de serem um apoio lateral (trataremos deste tema mais à frente). As entidades responsáveis pela incubação de empreendimentos devem estar duplamente atentas quanto a esta questão: a expectativa do grupo incubado face à incubadora e do conjunto dos incubados/cooperados em relação aos seus líderes.
Para uma organização que deve ter na auto-gestão um de seus pilares fundamentais, não enfrentar as conseqüências da interiorização do estigma da pobreza pode ser um fator altamente desagregador, especialmente pelo papel que podem desempenhar as lideranças dos empreendimentos. Na auto-gestão, por definição, a igualdade entre os membros deve ser a base de todas as decisões onde cada pessoa vale um voto. Luta-se para que todos apreendam o que está em jogo em cada decisão, há grande esforço para o empoderamento de cada membro e para um nivelamento da participação. Entretanto, nem nos empreendimentos mais bem sucedidos em termos dos critérios autogestionários, existe igualdade completa entre os membros, e nem poderia haver. A igualdade legal – todos votam, todos podem votar e serem votados, todos têm iguais responsabilidades e direitos conforme o Estatuto - não impede que a força simbólica da presença de alguns os diferencie dos demais. Se este fato se conjuga com a auto-imagem negativa pessoal e grupal, com a identificação com os poderosos e com o desejo de apoio a líderes fortes por parte de alguns dos membros do empreendimento, o processo auto-gestionário pode estar posto em cheque.

2) Rotatividade e intermitência

Uma outra conseqüência do contexto de pobreza de onde se origina a maior parte dos empreendimentos de Economia Solidária é a rotatividade e intermitência existente entre os membros dos empreendimentos. Chamamos de rotatividade ao processo de mudança continuada do quadro de membros de um empreendimento pela entrada e saída de empreendedores, que depois de certo tempo, encontram novos caminhos e afastam-se. A intermitência é o processo de saída e retorno de membros, muitas vezes desiludidos com o outro caminho escolhido, ou que simplesmente retornam ao empreendimento depois de um trabalho temporário.
Foi identificado, na pesquisa que mapeou em escala nacional os empreendimentos de Economia Solidária, coordenado pelo MTE (SINAES, 2005), que o maior motivo de entrada das pessoas nos empreendimentos de ES é o desemprego. Como estes empreendimentos têm grandes obstáculos ao seu desenvolvimento e demoram muito (considerada a escassez de renda dos empreendedores) a dar resultados que permitam a sobrevivência, outras oportunidades de trabalho aparecem, sejam atividades de curto prazo, seja um emprego relativamente estável. Como a atração pelo emprego tradicional, como foi assinalado anteriormente por Veiga (2002), é ainda a perspectiva mais desejada pelos trabalhadores, os empreendimentos de ES sofrem com os efeitos deste processo.

A rotatividade e a intermitência fazem com que as etapas de incubação citadas (pré-incubação, incubação e desincubação) sejam de fato sucessivas para todos os membros. Para os novos, ou para os que saíram e retornaram, sempre há um descompasso em relação aos que estiveram presentes desde o primeiro momento da experiência de empreendimento econômico associativo, seja em termos de formação técnica, de gestão associada, ou mesmo em termos culturais, ou seja, de comportamento face aos valores da Economia Solidária. Desta forma, é importante que os incubadores levem em consideração esta descontinuidade natural no processo e estejam preparados para uma atuação concomitante das etapas do processo de incubação.

II - Os atores que constroem o desenvolvimento dos empreendimentos solidários

1) As relações de trabalho nos empreendimentos de ES: o desafio da superação da hierarquia

Os trabalhadores de uma empresa capitalista sabem que a finalidade última do empreendimento é o lucro e que as relações de hierarquia são um dos meios de garantia deste resultado, às quais devem se submeter. Nos empreendimentos de Economia Solidária a finalidade última é melhoria da qualidade de vida dos seus membros, da comunidade em que estão inseridos e das redes das quais participa – o que pode ter um alcance planetário – tudo isto na base do “um membro, um voto”, ou seja, de forma auto-gerida.

Diante desta lógica de funcionamento e objetivos tão diferentes daquelas da economia de mercado, faltam regramentos testados por uma longa prática autogestionária, como foi a hierarquia para o capitalismo. Para que os empreendimentos de Economia Solidária sejam geridos de forma coletiva, espera-se que as regras da conduta e o esclarecimento do papel de cada um de seus membros devam ser decididos coletivamente. Nesta lógica, qualquer conflito deve ser decidido democraticamente, em votações presenciais ou de representantes, a depender do tamanho do empreendimento, e isto é complicado, conflituoso e demorado.
Os regramentos internos do ambiente de trabalho complicam-se ainda mais na experiência da Economia Solidária pelo fato de que, buscando superar a supremacia do trabalho intelectual sobre o trabalho manual e a aquisição de prestígio para alguns membros, derivada das suas funções, busca-se uma rotatividade de atividades. O desafio é que todos entendam inteiramente o processo produtivo, da matéria prima ao atendimento ao cliente, e conheçam todos os aspectos do gerenciamento do negócio, do investimento aos resultados.

Deste modo, as especializações segundo talento de cada um são muitas vezes mal vistas e torna-se difícil definir o papel de cada um e o alcance e limites de suas responsabilidades. O que observamos é que nos ambientes de ES, particularmente nos empreendimentos jovens, em processo de incubação, as relações se complicam por não haver um amplo entendimento sobre o que fazer a cada caso, à semelhança do quadro lógico da hierarquia. Muitas vezes cada membro do empreendimento espera que o outro aja e isto paralisa o grupo, outras vezes é a precipitação de um dos membros em decidir e fazer que complica as coisas. Este problema se apresenta pouco numa empresa capitalista, pois, pelos regulamentos hierárquicos existentes, é mais visível o papel de cada um em cada situação.

Na verdade, a falta do quadro lógico e conhecido da hierarquia faz com que a resolução de problemas de produção, de consumo, de comercialização, de controle de tarefas, etc. que não podem esperar até a próxima reunião do grupo ou dos seus representantes para ser resolvida democraticamente possam se tornar um problema. Enfrentar de forma criativa e participativa este problema é mais um desafio de empreendedores e incubadores.

2) As relações inter-pessoais

O tema das relações inter-pessoais nos empreendimentos de Economia Solidária é crucial para seu desenvolvimento e sucesso e por isto deve ser tratado com cuidado, dentro da especificidade da realidade de cada um deles. A aceitação do outro, o respeito e a compreensão nos momentos delicados, o cuidado com as emoções, precisam tornar-se prática. Do mesmo modo que se dedica tanto esforço à formação de tarefas que podem ser consideradas “instrumentais”, como o plano de negócio, os controles de caixa, o planejamento estratégico, etc. é preciso estar atentos à resolução dos conflitos e encontrar saídas que não sejam, a cada situação conflituosa, o afastamento de um membro. A superação desta fragilização continuada dos empreendimentos causada pelo desconforto nas relações inter-pessoais, ou pelo afastamento de membros, necessita ser tratada com metodologia apropriada.

Nas reuniões, geralmente feitas nos fins de semana ou à noite, após jornadas de trabalho exaustivas, nem sempre é fácil discutir os problemas de relacionamento no grupo. As pressões do cotidiano produtivo do empreendimento, que ocupam muito tempo em diagnósticos, análises e decisões e um certo constrangimento das pessoas em iniciar conversas francas onde naturalmente alguém acaba se magoando, vai deixando crescer mal-entendidos, que acabam por provocar afastamentos. Quando o grupo empreendedor supera as dificuldades dos primeiros tempos e consolida a confiança, estes transtornos nas relações pessoais tendem a diminuir, mas esta é uma conquista difícil, que, entretanto, merece ser empreendida.

Avançando um pouco mais no entendimento dos conflitos, percebe-se que nem sempre é possível resolvê-los pela discussão, e ainda menos na discussão coletiva, onde se observa uma tendência ao agravamento das tensões. De modo geral é preciso tempo e preciso também um intermediário legitimado pelo grupo, que ajude na busca de uma solução negociada. A lógica da vitória da maioria, tão propalada na democracia, significa muitas vezes a desconsideração aos que estão em minoria e isto vai minando aos poucos o ambiente. Provavelmente será necessário superar a lógica da maioria e tentar sempre buscar o consenso. Os incubadores precisam tentar ser este intermediário legitimado e ao mesmo tempo criar uma cultura de resolução de conflitos pela negociação, onde a cada conflito se identifique um intermediário legitimado diferente, entre os próprios membros dos empreendimentos.

3) Os desvios de conduta nos ambientes de Economia Solidária: como tratá-los?

Dentro dos empreendimentos de Economia Solidária (e também nas incubadoras, nas redes, nos fóruns, nas entidades financiadoras...) espera-se que os valores e as práticas de justiça, de cooperação, de democracia cotidiana estejam presentes num grau muito mais alto do que na sociedade em geral. Ao pensarmos que os membros de um empreendimento de ES, de modo geral, optaram por um funcionamento diferenciado do que comumente se vê no mundo capitalista – desigualdade, hierarquia, competição, para não falar na exploração pura e simples do homem pelo homem – espera-se muito do comportamento ético destes membros. A prática demonstra, entretanto, que as coisas não são tão simples.

Naturalmente a ES é uma construção e os valores que a orientam e justificam a sua própria existência devem ser buscados cotidianamente. Neste texto, entretanto, a abordagem desta questão pretende suscitar o debate em torno do perfil ideológico das pessoas que integram os empreendimentos. Ocorre que a motivação para a constituição destes empreendimentos populares está relacionada às condições materiais daqueles que os integra, ou seja, a necessidade de obtenção de renda e a falta de opções para tentar alcançar este objetivo, o que fica evidenciado no mapeamento da ES, já citado. Mesmo quando há uma motivação ideológica em torno dos valores da ES no surgimento de um empreendimento, outros membros são incorporados no caminho e nem sempre estes têm a mesma intensidade no seu compromisso com estes valores. Outras vezes, existe tanto a motivação ideológica quanto o engajamento, mas estes não resistem às pressões externas de uma sociedade que promete muito àqueles que têm mais que os demais. O mais comum é que haja uma certa fragilidade na vivência dos princípios (mesmo que não nos discursos) e isto pode acarretar o surgimento de desvios de conduta.

As falhas éticas ou desvios de conduta possíveis são muitos: o autoritarismo, a mentira, os comportamentos anti-sociais com os companheiros e mesmo a desonestidade para com o patrimônio coletivo. Este último desvio de conduta tem um significado particularmente grave já que mesmo na sociedade capitalista ele é tipificado como crime; deste modo, uma organização social da produção que se pretende moralmente superior, como a Economia Solidária, tem dificuldades ainda maiores de lidar com o roubo. Em segundo lugar porque, tratando-se de um patrimônio coletivo muitas vezes ligado à sobrevivência cotidiana dos membros do empreendimento, a subtração de parte deste patrimônio por um membro prejudica a qualidade de vida imediata de cada um, o que parece ser imperdoável. Entretanto, é importante pensar um pouco mais neste tema.
Diante de uma falha ética, em primeiro lugar, é imprescindível perguntar sobre a gravidade do fato em termos de montante, das circunstâncias particulares em que isto aconteceu e de quem é a pessoa que cometeu este ato. Tratar um membro de um empreendimento de Economia Solidária que cometeu algum tipo de desvio de conduta, mesmo um furto, com tolerância não seria uma condescendência, mas um dever do coletivo. Apostar na Economia Solidária é apostar nas pessoas, nas suas potencialidades, na sua capacidade de mudar pra melhor, pois é uma aposta num futuro mais justo, num mundo melhor. Sendo assim, a conduta implacável, não dá chance para a mudança, não condiz com a concepção do papel formador, pedagógico, dos ambientes de Economia Solidária.

Dar amplo direito de defesa, aplicar penas conforme o delito praticado - em circunstâncias mais ou menos graves – observar a questão importante da reincidência, é um dever para com o futuro de justiça que se diz querer construir deste já. Há uma outra abordagem que precisa ser incorporada quando um empreendimento vive uma situação como esta: a possível co-responsabilidade do coletivo para com os fatos. Quando não há no empreendimento um sistema de controles firme e uma exposição gradativa e controlada dos membros a atividades que exigem muita confiabilidade, como lidar com recursos, pode-se especular, em face a erros individuais, que houve falha coletiva no controle e na atribuição de confiança.

Para finalizar a abordagem deste aspecto, uma breve reflexão sobre o perigo de a tolerância se tornar perspectiva de impunidade. A tolerância, tão prenhe de confiança no outro, tão generosa na sua aposta no convívio humano, tão nobre no seu otimismo, pode também se configurar em ingenuidade, abrindo as portas para a injustiça. Um erro não punido devidamente pode estimular um erro mais grave, se aquele que errou não entender a dimensão educativa da tolerância e a expectativa que o coletivo tem no seu retorno a uma conduta correta. Como o enfrentamento de um problema como o desvio de conduta é sempre exemplar para o coletivo, uma condução mal feita do desfecho deste problema pode ser ruim pra a história do empreendimento. A opção pela tolerância não pode significar a impunidade, pois a crença na justiça coletiva pode assim ser abalada e desta forma outros desvios estarão nascendo: naquele que a praticou primeiro e em outros que seguirão seu exemplo, confiando que não serão punidos. Há que se ser tolerante, mas não ingênuo, e vigilante, pra que o erro não se repita.

III ) Particularidades do processo de incubação de empreendimentos auto-gestionários

A incubação pretende ajudar o empreendimento de Economia Solidária a se estabelecer em termos de auto-gestão e de viabilidade econômica, assim como apoiá-lo na sua inserção em redes, tanto produtivas, quanto políticas. Neste trabalho cotidiano de incubação, busca-se todo o tempo não chegar aos extremos da “tutela”, onde a incubação tende a ser muito presente e voluntarista, ou do “abandono”, quando a incubação é mais ausente, espera acontecer, sem interferir no ritmo natural dos fatos. Para manter um trabalho de incubação na justa medida, é preciso haver uma definição metodológica clara.

Quando se inicia o trabalho de acompanhamento, é natural maior interferência da assessoria, e quanto mais se aproxima da fase de desincubação, a tendência é um maior afastamento. Entretanto, estas atitudes tendem a se apresentar para além do momento em que elas seriam mais pertinentes e atravessam todo o processo de incubação, convertendo-se de certa forma em um problema a ser discutido. A seguir, faremos um perfil de cada uma das posturas de forma bastante maniqueísta, ou seja, realçando suas características extremas em termos dos benefícios e prejuízos que causam, para que se possa compreender com mais clareza o problema.

Ao acompanhar um empreendimento a assessoria é chamada a apoiar suas atividades sem, teoricamente, substituir a ação dos empreendedores. Para alguns, mais “maternais” ou mais voluntaristas, a responsabilidade para com o empreendimento transforma-se em substituição – executam as tarefas que deveriam ser realizadas pelo grupo, ou assumem a direção para mobilizar o grupo para que este as faça acontecer. Agindo desta forma, crêem estar protegendo o grupo do insucesso. Isto é necessário em algumas situações - como foi dito, particularmente nos momentos iniciais da incubação - mais se permanece longo tempo, é prejudicial ao grupo, que não se emancipa, não se torna autônomo. O que é longo tempo? Cada caso é um caso. Mas, por exemplo, se um grupo de empreendedores não dirige suas próprias reuniões, não relata suas decisões, não cobra uns dos outros o cumprimento das mesmas e delega isto ao assessor, o grupo está de alguma forma sendo tutelado. Num outro ponto de vista, se mesmo após a capacitação para tal, o grupo não controla suas receitas e despesas, não planeja sua viabilidade econômica e fica à mercê apenas do trabalho técnico do assessor, ele não está aprendendo a andar com as próprias pernas, e isto é catastrófico para seu futuro.

Alguns assessores, adeptos da construção da autonomia a qualquer custo, consideram que sua intervenção pode ser perniciosa ao grupo por causar dependência, e buscam ficar na periferia dos acontecimentos. Estes entendem que o papel da assessoria é questionar, levantar os problemas, mas não se implicar nas questões reais de sobrevivência do empreendimento que seriam responsabilidade exclusiva dos seus membros. Levada a extremo esta atitude configura o abandono do grupo. Quando o assessor opta por não intervir, ou intervir apenas para cobrar do grupo o que este ainda não tem habilidade para fazer, ele também está tendo uma atitude catastrófica, pois desestimula as pessoas, reforça o estigma da pobreza que está introjetado no íntimo das pessoas mais pobres, que acreditam no mais das vezes que são incapazes.
Na medida em que a assessoria não orienta o grupo diante de suas dificuldades e atribui estas dificuldades a uma falta de comprometimento do grupo, a uma incapacidade para a autonomia, à tradição autoritária e paternalista da sociedade, etc. ela está reforçando a baixa estima dos empreendedores. Observa-se este tipo de condução quando o grupo não consegue seguir a via normal de uma reunião, em que se faz um balanço do passado, se discute os desafios a serem enfrentados e se define tarefas para o futuro. Em geral, o grupo “abandonado” se perde em discussões genéricas ou em acusações recíprocas e não consegue diagnosticar suas potencialidades e buscar meios de desfrutar delas, vendo apenas seu “lado negro”, suas dificuldades. Este grupo não só nunca será autônomo, como corre um sério risco de se auto-destruir.

Estes os modelos extremos não são encontrados facilmente no dia-a-dia da atividade de incubação. Provavelmente não se encontrará uma assessoria exclusivamente tutelar ou que abandona completamente o empreendimento. Há tendências. Uma possibilidade de evitar os problemas que estas tendências, quando levadas a extremo, podem trazer, é ter-se consciência de qual é o perfil predominante da assessoria, tanto do ponto de vista metodológico, quanto do perfil pessoal das pessoas que acompanham os empreendimentos. Tanto incubadores como empreendedores têm que fazer esta avaliação, de forma generosa e solidária, evitando acusações, mas levando em consideração o fato de que de modo geral, nos processos de incubação, todos estão querendo muito acertar. Cabe ao grupo de empreendedores saber com que tipo de assessoria esta em contato, para não sofrer destes exageros.


Conclusões

Os debates em torno das metodologias de incubação de empreendimentos solidários têm mobilizado as instituições de apoio ao associativismo econômico, especialmente no ambiente universitário, cujo foco predominante é o desenvolvimento de grupos sociais em torno de planos de negócios em diferentes ramos de atividade. Com o crescimento da Economia Solidária e das ações de agências financiadoras, cresce a idéia de que é preciso alterar a perspectiva dos projetos de incubação, de forma a abranger um conjunto de ações integradas em diversos níveis, otimizando os resultados.

Esta lógica baseia-se na compreensão de que a viabilidade dos empreendimentos está relacionada à articulação em redes ou cadeias produtivas, ou mesmo na perspectiva do desenvolvimento local. Efetivamente, a discussão das metodologias de incubação tem levado à idéia de que é preciso estruturar a produção e o consumo solidários. São poucas, entretanto, as experiências de construção destas redes, a exemplo do que registra Mance (2003). A expectativa, contudo é que o crescimento da Economia Solidária tenda a exigir soluções articuladas em redes solidárias.

Por outro lado, a necessidade de aperfeiçoamentos metodológicos e conceituais visando uma maior adequação da incubação de empreendimentos solidários às particularidades do público alvo aponta para necessidade do aprofundamento da abordagem antropológica e sociológica da incubação. Esta abordagem serviria a enfrentar questões decorrentes da natureza da atividade aproximada entre incubadores e membros dos empreendimentos, assim como dos efeitos da vivência da pobreza no comportamento dos membros dos empreendimentos associativos. Este trabalho procurou identificar desafios nestas novas perspectivas e discutir possíveis saídas para favorecer o sucesso das atividades desenvolvidas pelas incubadoras.



Referências

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