23 agosto, 2006

ESTAGNAÇÃO DO EMPREGO NAS MONTADORAS

Nilton Vasconcelos*

Na divulgação das estatísticas relativas à produção automotiva brasileira no ano de 2005 a mídia destacou, sobretudo, o significativo recorde obtido com 2,44 milhões de unidades produzidas no ano – o que inclui os automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. Este número supera, em dez por cento, a produção também recorde do ano anterior. São indiscutivelmente resultados expressivos e estão diretamente relacionados ao desempenho das exportações. Quando se faz uma comparação com os índices de dez anos atrás, temos uma dimensão melhor do feito. Verifica-se que a produção de veículos, em 2005, foi cinqüenta por cento superior àquela observada em 1995.
Aliás, o ano de 1995 é um marco na política pública para o setor automotivo no país. Em junho daquele ano o governo Fernando Henrique Cardoso encerrou a experiência da Câmara Setorial Automotiva com a edição de uma série de medidas legais que estabeleceram o Regime Automotivo Brasileiro. Análises posteriores, inclusive do Tribunal de Contas da União, mostraram que a mudança introduzida beneficiou sobremaneira as montadoras em detrimento da indústria nacional de autopeças, deflagrando uma verdadeira corrida fiscal, com crescentes concessões por parte das três esferas de governo.
O crescimento da produção, no entanto, não ocorreu de forma linear, ao contrário, oscilou muito, tendo chegado a dois milhões de unidades, em 1997, e caído para 1,3 milhão de veículos, em 1999, retomando uma curva ascendente a partir de 2002.
Entretanto, um outro indicador menos divulgado e que interessa aos trabalhadores em particular, apresentou um comportamento diferente ao longo da última década. Trata-se do desempenho do emprego nas montadoras de veículos que, nos últimos anos, apresenta uma tendência a relativa estagnação.
Quando o indicador é pessoal empregado, comparados os anos de 1995 e 2005, temos efetivamente uma redução de dez mil vagas, caindo de 104 mil para 94 mil, em 2005. Prevaleceu nos últimos dez anos um quadro de estagnação da contratação, mantendo-se na faixa dos 85-90 mil contratos de trabalho nas montadoras. Assim, apesar de um crescimento de 6% do número de postos de trabalho nas montadoras em 2005, nos últimos onze anos detecta-se uma redução de dez por cento das vagas.
Uma análise mais extensa da série histórica produzida pela ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores do Brasil) indica que o ano de 1980 marcou o recorde do emprego com 133 mil postos de trabalho nas montadoras, para um total de 1,165 milhão de veículos produzidos naquele mesmo ano. Assim, a relação veículos produzidos/empregados na montadora/ano, variou de 8,7 veículos por empregado, em 1980, para aproximadamente 25,9 veículos por empregado, em 2005. Há, portanto, um crescimento significativo da produtividade, considerando este indicador.
A esta redução do emprego ao longo do período, e à relativa estagnação observada nos últimos anos, correspondeu um crescimento da sub-contratação, da terceirização, do emprego por tempo parcial e de outras modalidades de precarização do emprego. Correspondeu ainda, à utilização de métodos de gestão que privilegiam a redução de custos - inclusive os custos do trabalho, e que modificaram a estrutura da produção automotiva, transferindo grandes parcelas da montagem para empresas que integram outros níveis da cadeia produtiva.
Este último aspecto - a transferência de fases da produção para os fornecedores, poderia significar que o emprego também teria sido deslocado das montadoras para os fabricantes de autopeças, o que, entretanto, não ocorreu. Segundo dados do Sindipeças – Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores, que reúne as empresas produtoras de autopeças, o setor empregava em 1994 um total de 236,6 mil trabalhadores, tendo este número recuado para 187 mil, em 2004, com estimativa para dezembro de 2005, de chegar a 197 mil empregados. Em síntese, verifica-se um comportamento semelhante àquele observado nas montadoras de veículos.
Outro dado relevante, e que torna estes indicadores relativos a emprego ainda mais expressivos nos centros tradicionais da produção automotiva no Brasil, é que mais de dez novas fábricas foram construídas no país. Entre estas estão grandes plantas industriais no Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. Estima-se que apenas a Ford, em Camaçari, empregue em torno de 4 mil trabalhadores, sem contar as demais empresas integrantes do condomínio industrial comandado pela empresa estadunidense. As novas unidades da General Motors, Renault, Peugeot e outras, também contribuíram para o surgimento de milhares de postos de trabalho novos. Portanto, os dados mostram que a redução do emprego foi ainda mais dramática nos centros produtores tradicionais de autoveículos, como São Paulo.

Bibliografia consultada

ANFAVEA. Anuário Estatístico da Indústria Automobilística Brasileira - 2005
SINDIPEÇAS. Informativo, dezembro 2005, capturado na Internet no endereço http://www.sindipecas.org.br/noticias/informativo.asp
SINDIPEÇAS, ABIPEÇAS. Desempenho do Setor de Autopeças 2005.
TEIXEIRA, F. L. C. ; VASCONCELOS, N. . Reestruturação Produtiva, Organização do Trabalho e Emprego na Cadeia Automobilística Brasileira. Nexus Econômico, 2000.


* Membro do Conselho Editorial da Revista Debate Sindical, Professor do CEFET-BA, Doutor em Administração Pública.

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